Literatura sob o véu
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de outubro de 1998
Talal Tohme France Presse 
Prisioneiras da tradição, as mulheres escritoras dos países do Golfo precisam esconder-se atrás de pseudônimos para expressar com liberdade seus sentimentos ou suas opiniões sobre a sociedade.
Os jornais da região publicam numerosos artigos e poemas escritos por mulheres, mas que não são assinados com o nome de suas autoras, já que nestas sociedades ainda não se admite que uma mulher diga alto e claramente o que pensa.
Os escritos destas mulheres vão da crítica da vida política aos poemas de amor, passando pela denúncia da hipocrisia dos homens e da diferença entre sua vida pública e seu comportamento no lar.
As mulheres que publicam regularmente nos Emirados Árabes Unidos adotam geralmente nomes estranhos, como Eco dos suspiros ou Música eterna, ou se escondem por trás de nomes do tipo Uma jovem de Dubai.
No Qatar, os jornais abrem suas colunas a escritoras com pseudônimos significativos, como Eco das privações, Mulher da sombra ou Tristeza. No Kuwait, é famosa por seus artigos a Mulher da máscara (a burqah, máscara negra utilizada pelas mulheres da região).
Minha situação familiar me impede de proclamar meu nome, disse Mayssun al Jalidi, pseudônimo atrás do qual se esconde uma mulher de uma grande família dos Emirados, que publica geralmente na imprensa nacional.
Eu tenho muita sorte, porque todos os meus irmãos sabem que escrevo e inclusive um deles discute comigo meus artigos. Mas minha mãe, a quem adoro, não sabe que escrevo, revelou.
Às vezes lê meus artigos, sem saber que são meus, e os aprecia, mas não toleraria que sua filha fosse escritora, acrescenta Mayssun, que espera poder publicar um dia com seu verdadeiro nome. Escrever na escuridão é como ser cega, afirma.
Acha que a sociedade árabe vive uma esquizofrenia repugnante: os homens gostam de tudo o que as mulheres escrevem, com a condição de que estas mulheres não sejam suas parentes. Se fazem parte de sua família, mostram-se impiedodos com elas.
A escritora saudita Sultana Sudeiri, que publica hoje nos jornais de seu país com seu verdadeiro nome, começou também sua carreira literária com um pseudônimo. Comecei com um pseudônimo porque era muito jovem. Publiquei meu primeiro livro de poemas aos 16 anos, explica, acrescentando que muitas mulheres escrevem com pseudônimo em razão de sua situação familiar e social, mas algumas começam a utilizar seu verdadeiro nome.
Sultana, cujo pai fundou a primeira escola para meninas da Arábia Saudita, indica que foi seu marido quem a incentivou a escrever com seu verdadeiro nome. Por outro lado, a kuwaitiana Mulher da máscara explica que as contradições de nossa sociedade me levaram a rebelar-me e a escrever artigos provocadores, mas como a sociedade rejeita as mulheres audaciosas, recorri a um pseudônimo, em respeito à minha família.


