ReproduçãoRoberto Drummond: relato de alucinações num dia 1º de abril, quando o Brasil tomou Coca-Cola com LSD e entrou numa badEmbora a grande maioria dos programas de televisão não sirvam para absolutamente nada, algumas exceções passeiam via satélite. A minissérie ‘‘Hilda Furacão’’, inspirada no romance homônimo de Roberto Drummond, apresentada recentemente pela Rede Globo entrou para o clube dessas exceções. Serviu para que editoras começassem a pensar em reeditar as obras de Roberto Drummond fora das livrarias há anos.
A Geração Editorial, por exemplo, acaba de reeditar dois romances do escritor mineiro, o lendário ‘‘Sangue de Coca-Cola’’ publicado originalmente em 1980, e ‘‘Inês é Morta’’. As duas obras trabalham com o opressivo universo do regime militar instalado no Brasil após o golpe de 1968. Se por um lado ‘‘Inês é Morta’’ possui uma narrativa linear, ‘‘Sangue de Coca-Cola’’ é mais radical.
Um dos expoentes da literatura pop brasileira, Roberto Drummond realiza em ‘‘Sangue de Coca-Cola’’ uma apoteose do nonsense dentro do período de regime militar brasileiro dos anos 60 e 70. O autor define o romance na seguinte observação: ‘‘Relato de alucinações num dia 1º de abril que cheirava a Carnaval, quando o Brasil, segundo suspeitas mais tardes confirmadas, tomou Coca-Cola com LSD e entrou numa bad.’’
Com várias narrativas paralelas, os acontecimentos do livro ocorrem no dia seguinte ao golpe militar de 1964. Utilizando elementos do realismo fantástico, Drummond coloca vinte anos, a década de 60 e 70, num único e delirante dia. Garrastazu Médici caminha lado a lado com Zé Colméia. Sérgio Paranhos Fleury corre do Incrível Hulk nas ruas do Rio de Janeiro. Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo, ambos usando a boina do Pato Donald, praticam tiro ao alvo em bem-te-vis que ameaçam a segurança nacional. Arthur da Costa e Silva jogando palitinho com o Mandachuva e Guarda Belo. A Famíla Barbapapa acende um vela no altar da Santa Coca-Cola. Mulheres suplicam para que o Papa canonize Helena Rubinstein e declare a Avon gênero de primeira necessidade. O inventor do Milagre Brasileiro promete fazer chover perfume francês em todo território nacional. O porão do Doi-Codi é convertido em sauna para acolher Jerry Adriani e em programa de auditório para receber Francisco Cuoco. O exército persegue, com a missão de exterminar, uma borboleta verde que por onde passa deixa a felicidade. Os militares perseguem um urso, que muitos acreditam ser Jesus Cristo disfarçado, apontado como o cabeça da Revolução da Alegria. Isso sem falar no Homem do Sapato Amarelo, um guerrilheiro disfarçado de radialista gago. Tudo isso e muitas outras imagens alucinadas pontuam cada página de ‘‘Sangue de Coca-Cola’’.
Em ‘‘Inês é Morta’’, publicada originalmente em 1993, uma vidente narra a história de um ator medíocre que, frente ao fracasso e o prejuízo de sua encenação de ‘‘A Morte do Caixeiro Viajante’’ de Arthur Miller resolve abandonar a vida afogando-se no mar de Copacabana. Enquanto toma coragem para lançar-se no Oceano Atlântico, folheia um jornal e encontra um anúncio que pode salvar sua vida. O anúncio procura um ator que tenha semelhanças físicas com o presidente do país, um militar gaúcho, para atuar num filme de Hollywood.
O aprendiz de suicida passa no teste e é contratado não para fazer o filme, mas para ser o dublê do presidente em situações reais. Paranóico com uma série de atentados que vêm sofrendo, o general presidente passa todas suas aparições públicas ao ator. Lentamente o ator assume todas as características do presidente e passa a agir como o próprio. Perde sua própria identidade pessoal e assume a presidência do país.
Passa então a viver solitariamente no planalto na companhia da amante do real presidente, de um gato falante chamado Titanic e um punhado de fantasmas que povoam o palácio de Brasília. Frente ao eminente perigo do ator assassinar o verdadeiro presidente para assumir a presidência, o dublê é tirado do mapa.
Colocando em seus livros personagens reais e fictícios num mesmo espaço narrativo, Roberto Drummond representa como a realidade contemporânea se tornou impalpável. Misturada à mídia de forma envolvente e eficiente, a realidade abandona suas principais características, àquelas que possuem o sentido primordial dos fatos. O mundo real estaria se manifestando em duas formas, uma ficção travestida de realidade e uma realidade ficcionada. Não haveria mais espaço para o estado puro.
‘‘Sangue de Coca-Cola’’ de Roberto Drummond, Geração Editorial, 335 páginas.
‘‘Inês é Morta’’ de Roberto Drummond, Geração Editorial, 242 páginas.

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