LITERATURA QUE DERRUBA O PODER
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de setembro de 2001
Marcos Losnak<BR>De Londrina<BR>Especial para a Folha2 
Imagine um sujeito que passa os dias diante da televisão. Com sua arma, o controle remoto, ele vai atravessando os canais numa velocidade ascendente até chegar a um ponto crítico. Um ponto onde começa acreditar que a realidade também pode ser operada por controle remoto. Percebe que sua arma pode mudar o canal do mundo à sua volta. Uma descoberta que o afasta da televisão. Uma descoberta que o impulsiona para a realidade externa.
Percorrendo as ruas da cidade ele segue mudando o canal da paisagem. Muda os cruzamentos, muda as casas, os carros, os transeuntes, enfim, tudo que encontra pela frente. Nessa caminhada se depara com um prédio público onde políticos estão reunidos. Com convicção, ele avança com a arma em punho e, quando está prestes apertar o botão ''desliga'', é barrado pela polícia.
Dezenas de pessoas já imaginaram uma história como essa numa mesa de bar: o controle remoto da televisão mudando o canal da realidade. Mas foi Italo Calvino quem colocou a história no papel. Escreveu um conto sobre o tema em 1984. Inédito, o texto foi recuperado pela viúva do escritor italiano e publicado no livro ''Um General na Biblioteca'' que acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras.
Organizado por Esther Calvino, ''Um General na Biblioteca'' reúne 32 contos escritos por Italo entre 1943, quando tinha apenas 20 anos de idade, e 1984, um ano antes de morrer. Grande parte dos textos foi recolhido de manuscritos inéditos guardados no fundo da gaveta. Outra parte foi publicada apenas em revistas e suplementos literários da Itália.
Os contos de ''Um General na Biblioteca'' nada devem a outros livros de Calvino. Pode-se perceber que, mesmo nos textos escondidos na gaveta, ou escritos por encomenda, sua literatura mantém o sabor. A ironia elegante, o humor sutil e a leveza das fantasias estão presente na maioria dos contos. Sempre com a linguagem sendo trabalhada de acordo com o conteúdo.
Entre as curiosidades está ''A Glaciação'', narrativa que Calvino escreveu a partir do pedido de uma fábrica de uísque japonesa em comemoração ao aniversário da empresa. No texto, o escritor extrapola o tema e faz uma divagação de um homem desastrado que tem dificuldade em tirar gelo das forminhas do congelador enquanto uma bela jovem espera com um copo na mão.
Outra curiosidade presente no livro é ''O Incêndio da Casa Abominável''. A pedido da empresa IBM, Calvino criou um texto procurando mostrar como seria possível alguém escrever um conto em parceria como o computador. Isso em 1973, quando os computadores eram tratores de ficção científica. O texto, publicado na revista Playboy italiana no mesmo ano, mostra o embate entre computador e escritor levado a um confronto neurótico. Como se as duas inteligências, a artificial e a humana, em vez de unirem-se, competissem entre si.
Muito além de curiosidades ''O General na Biblioteca'' possui contos exemplares. ''A Ovelha Negra'', escrito em 1944, apresenta a história de um homem vivendo em uma nação de ladrões. Num país onde todos são ladrões, cada habitante roubando outro numa corrente sem fim. Certo dia o personagem deixou de roubar para olhar o rio que passava próximo da cidade. Sendo roubado, e sem roubar, o sujeito fica pobre do dia para a noite.
Mas tinha uma compensação, gostava de olhar o rio. Outros habitantes gostaram da idéia e também passam a apreciar as águas. Como sobrava pouco tempo para roubar, começaram a pagar para que os pobres roubassem para eles. No acordo da distribuição dos lucros, os pobres ficaram mais pobres e os ricos mais ricos: ''Havia ricos tão ricos que não precisavam mais roubar e que mandavam roubar para continuarem a ser ricos. Mas, se paravam de roubar, ficavam pobres porque os pobres os roubavam. Então pagavam aos mais pobres dos pobres para defenderem as suas coisas contra os outros pobres, e assim instituíram a polícia e construíram as prisões.'' E o homem honesto, o único de todo o país? Bem, morreu de fome.
''A Decapitação dos Chefes'', escrito em 1969, deveria ser um romance, mas ficou apenas na forma de conto. O próprio Italo Calvino (1923 - 1985) anotou nos manuscritos: ''As páginas que se seguem são esboços de capítulos de um livro que estou planejando há tempos e que pretendia propor um novo modelo de sociedade, ou seja, uma sistema político baseado no assassinato ritual de toda a classe dirigente em intervalos regulares.''
Calvino descreve uma sociedade onde os dirigentes políticos, após cumprirem seus mandatos públicos, são decapitados em praça pública. Todo o ritual está baseado na idéia que os dirigentes florescem, maduram e depois apodrecem. Então, para evitar o apodrecimento está regulamentada a morte. Todo político, ao pretender um cargo, sabe que mais cedo ou mais tarde será decapitado. Uma espécie de higiene pública.
''O General na Biblioteca'' revela um Calvino muito mais irônico com as questões políticas do que em outras obras. Talvez tenha optado deixar na gaveta textos que realizam uma abordagem literária mais social. Contos como ''Montezuma'', ''Henry Ford'' e ''O Homem de Neandertal'', por exemplo, ele utiliza o gênero entrevista ficcional para discutir assuntos relacionado ao poder, entre opressores e oprimidos. O escritor também realiza caminho inverso em outros textos, como o conto que dá título ao livro. Nele, o poder é ridiculalizado para que a literatura ocupe uma maior espaço. Espaço este que confere um sentido maior à existência dos personagens. Coisas do bom e velho Italo Calvino.
q Um General na Biblioteca - De Italo Calvino, Editora Companhia das Letras, tradução de Rosa Freire D'Aguiar, 252 páginas, R$ 24,00.


