O que veio primeiro, a música ou a dor?
As pessoas ouvem músicas tristes porque estão infelizes, ou ficam infelizes porque ouvem músicas tristes?
Como não deixar de comer, largar a escola e faltar ao emprego depois de levar um fora da namorada se você sempre ouviu canções sobre corações partidos?
Qual é, afinal de contas, a influência dos discos no grau de melancolia das pessoas?
Perguntas como essas, a que poucos dão importância, são capazes de tirar o sono de alguns sujeitos. Mais do que isso: podem atormentá-los por sucessivos invernos até uma idade mais avançada, quando os demais habitantes do planeta em sua faixa etária já estão preocupados com outros assuntos tais como os boletins dos filhos, a compra da casa própria ou as oscilações da Bolsa.
ReproduçãoAs bandas The Smiths e Jesus and Mary Chain, o cantor e guitarrista Neil Young e o filme ‘‘Cães de Aluguel’’ são algumas das citações do livro. O ator John Cusack vai interpretar o papel do personagem-narrador na versão cinematográfica do livroRob Fleming, 35 anos, é um desses sujeitos. Ele é o personagem-narrador do romance Alta Fidelidade(editora Rocco), que chega agora ao Brasil três anos depois de virar best-seller na Inglaterra dando fama e dinheiro para o escritor Nick Hornby. Fleming é um típico ‘‘adultescente’’, no sentido formulado pela imprensa inglesa, que cunhou o neologismo para designar jovens que prolongam a adolescência até a meia-idade.
Dono de uma loja de discos entregue às moscas, ou melhor, aos fregueses habituais dos sábados, ele acredita que algumas músicas realmente provocam estragos na alma dos mais sensíveis. ‘‘As pessoas’’, salienta ele, ‘‘se preocupam com o fato de as crianças brincarem com armas e dos adolescentes assistirem a vídeos violentos; temos medo de que assimilem um certo tipo de culto à violência’’.
‘‘Ninguém se preocupa com o fato de as crianças ouvirem milhares - literalmente milhares - de canções sobre amores perdidos e rejeição e dor e infelicidade e perda. As pessoas afetivamente mais infelizes que conheço são as que mais gostam de música pop; e não sei se foi a música pop que causou tal infelicidade, mas sei que elas vêm ouvindo as canções tristes há mais tempo do que vêm vivendo suas vidas infelizes’’.
Fleming divaga e devaneia aos borbotões. Ele está na pior. Foi chutado pela namorada e tenta reconquistá-la pagando micos em série. Ela, por sua vez, já está morando com outro cara - não um cara qualquer, mas um que habitava o apartamento de cima na época em que - ele e ela - dividiam o mesmo edredom. Fulminado na auto-estima, Fleming tenta sair com uma cantora americana de folk music mas o caso não progride.
No vaivém de seus sentimentos, decide reencontrar antigos amores. Chega à conclusão que está condenado à solidão de seus 2 mil CDs. Alta Fidelidade pinta o retrato de um perdedor, mas transcende os roteiros de praxe desse gênero de narrativa apresentando um fascinante painel da desorientação afetiva deste final de milênio. Não por acaso, o livro foi saudado como um ‘‘romance de geração’’ pela crítica britânica, embora o título tenha sido atribuído menos pelos tropeços amorosos protagonizados pelo personagem do que pela profusão de citações e referências à cultura pop que infesta as quase 300 páginas do volume. O dilúvio de nomes de músicas, discos, bandas, filmes e seriados é atordoante.
Fleming desenvolveu até uma mania de listar tudo em termos das ‘‘cinco mais’’ onde inclui desde obviedades do tipo ‘‘as cinco melhores canções de todos os tempos’’ até esquisitices daí derivadas como ‘‘as cinco piores bandas que terão ser fuziladas quando a revolução musical chegar’’ ou ‘‘as cinco melhores faixas de lados 1 de elepês’’ e por aí vai.
Obcecado por música, ele passa a maior do tempo discutindo essas famigeradas listas com seu dois funcionários (Barry e Dick) na loja de discos. O problema é que ele não poupa nem suas relações amorosas do pendor classificatório. Já na primeira página do livro, Rob recorda as cinco garotas que mais tiraram lascas de seu coração. ‘‘Em ordem cronológica, minhas separações memoráveis, as favoritas, as cinco que eu levaria para uma ilha deserta’’, anuncia ele, para logo depois listar os nomes das gurias comentando caso por caso seus fracassos.
O cúmulo da coisa toda é que ele, coadjuvado por Barry e Dick, realmente leva a sério essa maluquice. Para os três, quem possui gosto estético duvidoso (particularmente em relação à música pop, filmes, livros e seriados de TV), não merece fazer parte de seu círculo de amizades. ‘‘A verdade é que as coisas importam e não adianta fingir que um relacionamento tem futuro se as suas coleções de discos discordam violentamente, ou se os seus filmes favoritos nem falariam um com o outro ao se encontrarem numa festa’’, diz Fleming, num parágrafo.
A propósito, o elenco de referências pop espalhado pelas páginas inclui Jesus and Mary Chain, Neil Young, Elvis Plesley, The Clash, Beatles, The Who, Sonic Youth, Lemonheads, Elvis Costello, Nirvana, Aretha Franklin, Marvin Gaye, Pretenders, Suede, ‘‘Only Love Can Break Your Heart’’, ‘‘Last Night I Dreamed That Somebody Loved Me’’, ‘‘White Man In The Hammersmith Palais’’, Cães de Aluguel, o semanário new Musical Express, Betty Blue, Taxi Driver, Cheer, Star Treck e mais algumas dezenas.
Alta Fidelidade é o segundo livro de Nick Hornby. O primeiro, Fiver Pitch, é de 92 e já foi adaptado para o cinema. Conta sua paixão pelo Arsenal, time de futebol do norte de Londres do qual ele é torcedor desde pequeno. Alta Fidelidade também vai chegar às telas, com John Cusack como ‘‘Rob’’ e direção de Stephen Frears.
No ano passado, Hornby publicou About a Boy, que já teve os direitos de filmagem vendidos para a produtora do ator Robert De Niro.ReproduçãoNick Hornby: escritor virou sensação entre os jovens escritores da InglaterraNelson Sato

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