O Brasil possui 921 prisões, com uma população carcerária que chega a 250 mil pessoas. Nesse universo paralelo densamente povoado, emergem talentos literários, que usam os canais da escrita para aplacar as angústias. Os relatos brutais descrevem com autenticidade as bombas relógios capazes de explodir sob qualquer vacilo.
A chamada literatura prisional ganha impulso no mercado literário no ano 10 do massacre do Carandiru, o episódio na história brasileira que se tornou tão emblemático quanto indigno. O livro do médico Drauzio Varella Estação Carandiru tornou-se um best-seller e trouxe à reboque outros relatos sobre o mundo por trás das grades. Varella hoje é considerado Presidente da República do Carandiru, tamanha a fama conquistada. Outro fator de reflexão é a atual fase que se encontra o gênero ficção. Há um evidente esgotamento dos escritos ficcionais em lidar com a realidade. Periferia e vida carcerária são temas do momento, isso contribui para o sucesso da produção.
Existe um fascínio pelo universo carcerário que repercute nos sucessos dos CDs de rap (Diário de um Detento, de Jocenir, com os Racionais) e no mercado de livros. O ex-detento Jocenir vive em São Paulo, mais precisamente na ruidosa Barão de Itapetininga, onde vende seu best-seller ''Diário de Um Detento'' (o livro).
Editoras do calibre da Companhia das Letras, Geração Editorial e até a Gallimard, de Paris, reúnem em seu staff apenados brasileiros, muitos sem a perspectiva de sair da prisão. A literatura prisional se apega principalmente ao estilo confessional, recheado de denúncia, sexo, sevícia e episódios de ações. Os gritos de clamor e ódio, a revolta pela injustiça e os traumas são relatados à mão, em letras agarranchadas e textos crivados de erros de ortografia. Pouco importa, a grande novidade é que o 'gueto' está produzindo literatura; há uma necessidade de expressão por todos os canais, todos os meios.
A produção inclui diários, crônicas, poesias, cartas, romances que surgem diariamente. Mas são as cartas que mantêm o elo com o mundo exterior. Escrever no xadrez se converte em redenção, catarse, uma forma de não enlouquecer. Uma considerável parte da produção é de qualidade duvidosa, reflexo da formação escolar deficitária dos detentos. E dependendo da prisão, escrever se torna sinônimo de respeito.
Mas em geral, escrever é uma forma de se manter vivo. Isso quando a carceragem não toma posse do material, invadindo celas, rasgando livros e escritos. Mesmo com tantos relatos e confissões, ainda não foi dito o que realmente acontece nos cárceres do País. Há em vigor um código de silêncio, que salvaguarda a real história prisional e os escritores.
Um dos mais famosos escritores do cárcere, Hosmany Ramos, produz compulsivamente uma média de um livro mensalmente, em Araraquara (SP). Como estudou literatura nos Estados Unidos, se considera um escritor preso. Seu livro ''Marginália'', de 1988, recebeu edição da Gallimard, a mais importante editora francesa. Hosmany Ramos também escreveu ''Pavilhão 9: Paixão e morte no Carandiru'', pela Geração Editorial.
Luiz Alberto Mendes, outro intelectual encarcerado e notabilizado pelo livro ''Memória de um Sobrevivente'', editado pela Companhia das Letras, possui até coluna na revista Trip. Num laptop que comprou graças ao sucesso do livro, produz sua literatura de impacto. Tem ainda três livros no prelo e mais 300 contos e dezenas de ensaios arquivados. Antes do laptop, o escritor escrevia a mão e tem um dedo defeituoso de tanto escrever. Mendes foi descoberto pelo dramaturgo Fernando Bonassi.
Anteontem, em São Paulo, o ex-detento André du Rap e o jornalista Bruno Zeni fizeram o lançamento do livro ''Sobrevivente André du Rap (Massacre do Carandiru)'', pela Labortexto Editorial. O evento aconteceu envolto à badalação da imprensa nacional. O livro depoimento começa diretamente com a descrição do massacre. José André de Araújo (André du Rap) sobreviveu sob os corpos dos companheiros mortos. Du Rap relata os momentos de holocausto no Carandiru, quando os policiais pingaram plástico de colchão queimado e furaram os corpos para se certificarem de que não havia sobreviventes.
As cicatrizes das cenas horrorizantes ficam para sempre. ''Começamos a lavar o pavilhão, puxando com rodo aquele monte de sangue. Pedaço de carne, pedaço de companheiro seu, pedaço de ser humano ali no meio da água misturada com sangue, sangue de vários homens'', diz trecho do livro ''Sobrevivente...''.
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A reportagem continua na página 3.

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