LITERATURA NA MORTE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de maio de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Chegam ao mercado os primeiros volumes da série de romances abordando, de maneira ficcional, a morte de escritores como Rimbaud, MoliSre, Stevenson e Sade
Encomendar um romance para um escritor é como jogar anzol e isca num rio. Nunca se sabe que tipo de peixe será fisgado da água. Nunca se sabe o tamanho do peixe que ficará preso ao anzol.
Apesar dos riscos e incertezas, o mercado editorial está investindo nesta pescaria nas águas da literatura brasileira. No ano passado a Editora Objetiva publicou sete títulos pela coleção Plenos Pecados em que escritores convidados criaram romances abordando os sete pecados capitais. Entre eles estavam João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura e João Gilberto Noll. Alguns dos títulos chegaram a frequentar a lista dos mais vendidos.
Agora é a vez da Editora Companhia das Letras lançar seus anzóis. A editora está lançado a coleção Literatura ou Morte em que escritores convidados criam romances policiais focalizando literatos do passado. Os primeiros quatro volumes já estão nas livrarias: O Doente MoliSre de Rubem Fonseca; A Morte de Rimbaud de Leandro Konder; Medo de Sade de Bernardo de Carvalho; e Steveson Sob as Palmeiras de Alberto Manguel. Nos próximos meses estão programados outros lançamentos, entre eles Moacyr Scliar escrevendo sobre Franz Kafka, Luis Fernando Verissimo sobre Jorge Luis Borges, José Saramago sobre Alexandre Dumas, Ruy Castro sobre Olavo Bilac, Zuenir Ventura sobre Glauber Rocha, Milton Hatoun sobre Euclides da Cunha e Patrícia Melo sobre Edgar Alan Poe.
Dos quatro volumes publicados a grande decepção está em O Doente MoliSre do consagrado Rubem Fonseca. Focalizando a vida e obra do dramaturgo francês (1622 - 1673), o autor cria um romance sem surpresas, até mesmo sonolento, que se revela muito mais como um romance histórico do que policial. A história aborda a morte de MoliSre sob a ótica de um Marquês anônimo, amigo e admirador do dramaturgo. Ao descobrir que a morte de MoliSre foi provocada por envenenamento, o Marquês tenta descobrir o assassino num grande círculo de pessoas que ficariam felizes com a morte dele.
A grande surpresa fica por conta de A Morte de Rimbaud de Leandro Konder. Trata-se da estréia do filósofo na literatura ficcional e o único título da coleção Literatura ou Morte com uma trama com características realmente policiais. Narra as aventuras e desventuras de um detetive particular na tarefa de desvendar o assassinato de Rimbaud e prender o autor do crime. O Rimbaud, no caso, não é o famoso poeta francês Arthur Rimbaud (1854 - 1891), mas sim um escritor chamado Severino Cavalcante que atende pelo apelidado de Rambo. Um dos principais ingredientes da narrativa de Konder é a ironia.
Assíduo frequentador de academias de musculação, Rambo teve seu apelido afrancesado para Rimbaud por um mecenas amante da literatura francesa. Após ganhar na loteria, ele adota cinco escritores oferecendo-lhes polpudas mesadas a única condição imposta é que os todos eles residam no hotel do mecenas. Sem precisar trabalhar, o quinteto lentamente deixa a literatura de lado para levar uma vida pautada pela luxúria. Como em todo romance do gênero, o assassino é revelado nas últimas páginas, justamente aquele indivíduo fora de suspeita.
Em Medo de Sade, Bernardo de Carvalho apresenta duas narrativas. Aparentemente desvinculadas uma da outra, se encontram em alguns pontos. A primeira apresenta o diálogo entre um Barão libertino e o suposto Marquês de Sade (1740 - 1814) numa cela do presídio de Chareton. Acusado do assassinato de uma ninfeta numa orgia, o Barão consegue desvendar o crime com a ajuda de Sade e descobrir o verdadeiro assassino.
A segunda narrativa é apresentada por um enfermeiro de hospital psiquiátrico. Contando para um outro enfermeiro a história de um dos pacientes, revela a história de um jovem casal que adotou os princípios de uma antigo Barão adepto da filosofia de Sade. A vida de marido e mulher se converte num jogo um jogo de tentativas de assassinato. As regras são simples, um deve procurar matar o outro, mas se alguém realmente morrer sai vitorioso. Aquele que permanecer vivo perde o jogo.
Medo de Sade possui uma intrincada estrutura, seu conteúdo é desenhado por idéias pautadas pela inversão de valores. Não pode ser considerado um romance policial, mas uma narrativa ficcional onde Bernardo de Carvalho não percorre caminhos fáceis.
Em Stevenson Sob as Palmeiras o escritor argentino (naturalizado canadense) Alberto Manguel resgata os últimos dias de vida do escritor inglês Robert Louis Stevenson (1850 - 1894) em Samoa, ilha do Pacífico Sul. Autor de clássicos como A Ilha do Tesouro e O Médico e o Monstro, Stevenson com a saúde debilitada é acusado de estupro e assassinato de uma virgem nativa. Coisas estranhas começam a acontecer após o encontro do escritor com um missionário misterioso que procura retirar os pecados dos habitantes da ilha. Fatos sobrenaturais do universo samoano se misturam com a realidade da cultura européia até o choque fatal.
Alberto Manguel construiu um romance simples, porém pontuado com tons poéticos. Utiliza elementos da própria literatura de Stevenson para tratá-lo como personagem. Não se liga ao gênero policial, apesar das menções de crimes, em favor de um leveza interna que confere à narrativa uma alma penetrável.
Tudo leva a crer que o tipo de peixe que se retira do rio, bem como seu tamanho, não depende apenas do tipo de isca utilizada do anzol, mas sim da verdadeira intenção do pescador. O verdadeiro motivo que o leva a pescar ou mesmo escrever.
O Doente MoliSre de Rubem Fonseca, Editora Companhia das Letras, 148 páginas, R$ 17,00.
A Morte de Rimbaud de Leandro Konder, Editora Companhia das Letras, 160 páginas, R$ 17,00.
Medo de Sade de Bernardo Carvalho, Editora Companhia das Letras, 110 páginas, R$ 16,00.
Stevenson Sob as Palmeiras de Alberto Manguel, Editora Companhia das Letras, 88 páginas, R$ 15,00.


