Literatura malcriada
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Se publicada neste jornal, a primeira frase do romance ''Pornopopéia'' resultaria provavelmente em ligações e e-mails de leitores indignados reclamando das palavras de baixo calão. ''Pornopopéia'', o mais recente livro do escritor paulistano Reinaldo Moraes, não recusa o linguajar das ruas. É recheado de gírias e expressões chulas que muita gente usa no dia-a-dia.
A obra, de 480 páginas, traz um cineasta que leva a vida encharcando-se de sexo, drogas e bebidas. Moraes apresenta um personagem tão cativante em suas imperfeições quanto o protagonista de ''Tanto Faz'', seu cultuado livro de estréia.
''Tanto Faz'' é considerado uma referência cult da década de 80. Será que, um dia, ainda vão chamá-lo de ''romance de uma geração''?
Não acredito em ''gerações''. Acho, por exemplo, que Homero, Shakespeare, Machado de Assis e Oswal de Andrade são da minha geração. Acredito mesmo é em nascimento e morte, mais nada.
''Pornopopéia'' traz semelhanças com ''Tanto Faz''? Fale sobre elas e convença o leitor a não sair correndo ao se defrontar com as mais de 400 páginas do calhamaço.
''Tanto Faz'' é zoeira poética, erótica, lírica e ainda juvenil. ''Pornopopéia'' é trash niilista, com uma levada sarcástica e amoral, temperada com humor amargo e pré-senil. Pra ler ''as mais de 400 páginas do calhamaço'' você só precisa de um lugar pra se jogar, de preferência um bom sofá velho, e ninguém pra te encher o saco durante uns 2 dias.
Quanto de autobiográfico há em seus livros?
Esses 3 livros são impressões de vida - da minha e de outras pessoas que conheço/conheci - recicladas em ficção. Ou seja, turbinadas com a imaginação ficcional. No ''Pornopopéia'' eu cito uma frase do Thomas Pynchon sobre literatura que mais ou menos esclarece essa questão: ''Se não é o mundo, é o que o mundo poderia ser, com um pequeno ajuste ou dois. Segundo alguns, esse é um dos principais objetivos da ficção.''
Alguns autores afirmam que o processo da escrita é uma experiência que, além de ser prazerosa, também é muito dolorosa. Você concorda?
Se escrever te for soloroso, mude de cadeira ou poltrona. Ou desista de escrever, mano.
Você segue uma rotina de trabalho no processo de criação ?
Sempre que não estou bêbado ou com o nariz enfiado num livro, ou ainda ocupado com a vida prática, estou escrevendo, dia e noite. Se não for assim, não sai nada, nunca.
Você já pensou na possibilidade de ter alguns de seus livros levados às telas? Qual deles daria um longa atrai-multidões?
Já escrevi roteiros pra 2 filmes infantis (''Tainá 1'' e ''O segredo dos golfinhos'', com a Eliana), uns 2 pou 3 curtas e uma porrada de capítulos de telenovela (''Helena'', ''O campeão'' e ''Bang-Bang'') e sitcom (''Ô coitado!''). Tudo meia-boca, pra falar a verdade, só ganha-pão. O único texto literário meu adaptado pra cinema foi o ''Sildenafil'', um conto do meu livro ''Umidade''. O filme, feito pelo Clovis Mello, acaba de ganhar os festivais de cinema brasileiro de Miami e Toronto, dos quais eu nunca tinha ouvido falar. Vai passar agora no FestRio. Nada do que eu escrevi atrairia multidões, a menos que os cinemas oferecessem pizza e sexo de graça pra galera.
Quais autores mais o influenciaram e que livros ninguém deveria deixar de ler?
''Memórias Póstumas de Brás Cubas'' (Machadão de Assis), ''O Jogo da Amarelinha'' (Cortázar), ''O Complexo de Portnoy'' (Philip Roth).


