O romantismo através do amor entre duas mulheres - uma mais velha e outra mais jovem - é o tema central da coreografia ‘‘Exílio’’ que a companhia carioca de dança Regina Miranda e Atores Bailarinos apresenta hoje, na programação do Fest-Dança de Curitiba, às 21 horas, no Guairinha. Os ingressos deve ser trocados por dois quilos de alimentos.
A segunda coreografia que a companhia, que vem pela primeira vez a Curitiba, traz ao festival chama-se ‘‘Moderato Cantabile’’ e é uma adaptação da obra da escritora francesa Marguerite Duras. ‘‘É puro expressionismo que inscreve nos corpos dos bailarinos a expressão do desejo’’, adianta a própria Regina Miranda. Ela diz que a dança faz alusões ao lado patético das relações humanas, mas sem usar de pieguismo.
‘‘Moderato Cantabile’’ foi o espetáculo escolhido para encerrar a Bienal de Lyon, na França, em 1996. Os atores-bailarinos fizeram o final apoteótico do evento que mostrou o melhor da dança brasileira.
Em ‘‘Exílio’’, a diretora faz uma releitura da peça teatral Savannah Bay. Com apelo cênico muito forte, são abordadas as diferenças entre as duas personagens e a nuance do relacionamento vivido entre duas pessoas com expectativas de vida tão diferentes. Enquanto a mais jovem quer viver intensamente o momento, a mais velha busca a tranquilidade.
Por sua vez, a primeira versão de ‘‘Exílio’’ estreou em 1993, no Dia Center For The Arts, em Nova York, num espetáculo em homenagem a Robert Ellis Dunn. Recebeu uma versão final em 1995, por ocasião do 15º aniversário da Companhia Regina Miranda e Atores Bailarinos.
Com 20 anos de pesquisas e muito trabalho, a companhia Regina Miranda e Atores Bailarinos tem uma característica peculiar: a via de inspiração das coreografias é a literatura. A estréia, em 1980, foi com ‘‘Heliogabalo’’ e, pela junção com as artes plásticas, foi polêmica para a época.
Depois, em 1991, veio a ‘‘instalação-coreográfica’’ da Divina Comédia no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. ‘‘Usamos o subsolo, os jardins e as salas de exposição para uma coreografia itinerante que apresentava o Inferno, o Purgatório e o Paraíso de Dante’’, lembra a co-diretora artística e bailarina Marina Salomon.
Em ‘‘F.Thala’’, apresentada em 1994, a coreografia também baseou-se na obra de Marguerite Duras. ‘‘A partir do livro Savannah Bay, começamos a pesquisar toda a obra da escritora e em seguida montamos ‘‘Exílio’’ e ‘‘Moderato Cantabile’’. Cada espaço é dedicado a um livro associando a dança ao teatro, como uma narrativa’’, conta Marina.
Mas, segundo Marina, a companhia está em processo de mudança. ‘‘Estamos indo mais para o lado da poesia e menos para o da prosa. ‘‘Exílio’’ é a primeira coreografia que anuncia esta mudança de rumo. É um estopim para a linguagem poética.’’
Dentro das mudanças e desenvolvimento dos trabalhos, de 1996 para cá, é pesquisado o gestual dos bailarinos. Os movimentos estão tendendo para os mais reconhecidos como dança, piruetas e saltos. ‘‘Nisso tudo criamos uma gramática pessoal de movimentos. Na verdade, fazemos um sistema de análise de movimentos baseada no grande coreógrafo húngaro, que foi Rudolf Laban. Não é uma técnica, mas um sistema de dança baseado em extensa pesquisa dos movimentos humanos cotidianos. Este sistema é muito interessante e é aplicável à dança, ao teatro, à política, aos empresários, aos esportistas, etc. Descreve a dinâmica dos movimentos com suas variações de cores’’, entusiasma-se Marina.
Dentro dessa técnica existe um estudo profundo das forças espaciais. As diagonais, por exemplo, passam a criar relações com o bailarino, onde o parceiro é o próprio espaço, como uma filosofia do movimento.
Fest-Dança Curitiba 2000, apresentação da Companhia Regina Miranda e Atores Bailarinos, hoje, às 21 horas, no Guairinha. Ingressos: dois quilos de alimento não-perecível.