LITERATURA INFANTIL - Riquezas da cultura africana
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de outubro de 2007
Beth Néspoli<br> Agência Estado 
Bons livros infantis são aqueles que transmitem valores de forma lúdica, sem didatismo explícito. São assim os mitos e lendas tradicionais de todos os povos. E vêm das histórias da tradição oral a maioria dos livros voltados para o público infantil de autores de países africanos como Gana, Moçambique e África do Sul, entre os já traduzidos no Brasil. Não são histórias criadas com o objetivo explícito de ''valorizar a cultura negra'' pois elas são, por si só, a riqueza dessa cultura, com seus arquétipos e suas narrativas que tratam de temas universais como morte, amizade, solidariedade e a harmonia com a natureza.
Para a gerente editorial da SM - que vêm investindo fortemente nesse gênero de literatura para crianças -, conhecer a cultura africana pelos olhos e mentes de autores locais propicia uma apreensão mais plena da diversidade cultural desse continente. ''A imagem preconceituosa de uma África folclórica, tribal, permeada de guerras e assolada pela miséria e pela Aids não corresponde à sua riqueza e pluralidade, onde passado e modernidade se entrelaçam com força'', diz Dolores Prades.
Realmente é urbana e muito divertida a história de menina Jamela, de Niki Daly, autor da África do Sul, também ilustrador do livro. Jamela corre atrás de sua amiga, uma galinha, por ruas cheias de carros. Há uma imagem que vale por muitas palavras: a galinha invade um salão de beleza onde mulheres africanas fazem seus lindos penteados trançados, diversos entre si, e do que usa Jamela.
A saga da superação do menino como rito de passagem, por exemplo, é o tema central do ''O Chamado de Sosu'', de Meshack Asare, escritor nascido em Gana, um dos convidados da última edição da jornada literária de Passo Fundo. Nessa narrativa - esse livro está em 12º lugar na lista dos cem melhores da África e foi premiado pela Unesco em 1999 -, Sosu é um menino que não pode andar, mas sua limitação não impede que no momento certo seja capaz de um ato de coragem que salva sua aldeia.
Agora, imagine um príncipe muito covarde, que consegue realizar grandes feitos graças ao amor de uma princesa. Bem femininamente, ela sabe de sua covardia, mas não se importa. Pois essa é uma das deliciosas fábulas do livro ''O Príncipe Corajoso e Outras Histórias da Etiópia''.
Mas nem tudo é tradição. Bons autores também inventam histórias renovando o repertório. É o caso de Mia Couto. Em ''O Beijo da Palavrinha''. Com sua característica linguagem poética e trabalhada, ele faz chorar adultos e encanta crianças ao lidar com as letras da língua portuguesa como se fossem ideogramas numa história comovente, cujo tema central é a morte, sempre difícil de ser abordado para crianças.
Por outro lado, assim como Carolina Cunha, autora de ''Yemanjá'', há também outros brasileiros escrevendo bons livros dessa série ''África'' para crianças. Como ''José Moçambique e a Capoeira'', da Cia. das Letrinhas, da artista plástica Laurabeatriz e da jornalista Thereza Almeida. Nas páginas cheias de ilustrações, mais uma saga de superação, do menino José que enfrenta perigos para buscar a cabaça perfeita para salvar um amigo.
Ao fim do volume, um apêndice com fins didáticos, atraente e bem ilustrado, ensina muito sobre a origem da capoeira, fala da importância de mestres como Bimba e Pastinha, detalha as diferenças históricas, rítmicas e coreográficas entre capoeira regional, criada por mestre Bimba e a capoeira de Angola, que teve mestre Pastinha como seu grande divulgador. O livro traz textos que modificam o olhar sobre a chamada feitiçaria, uma definição preconceituosa para rituais religiosos de alguns povos africanos.
Todo bom livro, como todo mito autêntico, pode ensinar valores fundamentais por meio do encantamento das belas histórias. No caso desses livros, da série África para crianças, o ensinamento vai além. ''O acesso à diversidade e riqueza do continente africano acaba sendo uma ponte entre nosso passado e as questões-chave que movem o mundo hoje'', afirma Dolores Prades.
Contudo, a menina estava tão fraca que a viagem se tornou impossível. Todos se aproximaram da cabeceira e ali ficavam sem saber o que fazer, sem saber o que dizer. A mãe pegou nas mãos da menina e entoou as velhas melodias de embalar. Em vão. A menina apenas ganhava palidez e o seu respirar era o de um fatigado passarinho. Já se preparavam as finais despedidas quando
o irmão Zeca Zonzo trouxe um papel e uma caneta.
(Fragmento de O Beijo da Palavrinha, de Mia Couto)


