Curitiba - Não existe infância melhor aproveitada do que aquela em que é possível sentar em volta dos avôs ou tios e escutar os velhos causos que aconteceram na cidade. Lendas ou não, as histórias ficam no imaginário por anos a fio e mais tarde podem até ser repassadas, com uma pitada a mais de ironia ou terror. Isso é folclore. E tem, portanto, o risco de se perder no tempo. Para evitar que lendas paranaenses desapareçam ou sejam esquecidas o Governo do Paraná organizou o livro ''Lendas e Contos Populares do Paraná''.
A obra, a terceira da série Paraná da Gente, reúne mais de 200 histórias contadas em diversos municípios paranaenses. Para organizar o livro, a Secretaria de Estado da Cultura do Paraná recebeu textos de 97 cidades. São 12 capítulos divididos por temas, como as lendas do Monge João Maria, com diversas versões de acordo com a região. A maioria dá conta de um santo andarilho, um velhinho barbudo e cabeludo que perambulava pelas cidades propagando a palavra divina.
Algumas versões da mesma história tem humor próprio. O livro relata, por exemplo, o caso de uma senhora que decidiu visitar o acampamento do santo e levar-lhe uma galinha. Mas quando foi buscar o presente no galinheiro, a ave não se deixava capturar e a senhora, furiosa, gritou: ''oh galinha do diabo!''. Quando finalmente conseguiu pegar a ave, levou-a ao profeta, que disse: ''Essa galinha você já deu ao diabo primeiro, portanto ela não me pertence''.
Alguns dos contos têm a origem da narração e a identificação de quem enviou para secretaria, outros não. Mas se o leitor não tiver interesse histórico (e com um pouco de boa vontade) acaba nem percebendo o detalhe, pois a riqueza do livro está justamente na reunião dos causos. Além das dezenas de versões das andanças do Monge João Maria pelo Estado, o livro ainda resgata outras manifestações de santos e santas; Maldições, pragas e maledicências; Assombrações, noivas e outras aparições; Benzimentos, curas e milagres; Cemitérios e caixões; Heróis, bandidos, escravos e aventuras; Lendas indígenas; Lobisomens, demônios, monstros e outros seres fantásticos; Lugares e coisas encantadas; Tesouros escondidos e Origens e nomes de localidades e cidades.
Nesta última categoria está incluído a lenda do Véu da Noiva,a exuberante cachoeira localizada na Serra do Mar. Diz a lenda, que uma moça, filha de um fazendeiro, foi impedida pelo pai de casar com um dos empregados da fazenda, já que o pai queria um futuro melhor para a filha. O pai arranjou-lhe um casamento com um homem rico, mas quando a data do casório se aproximou, a moça foi até a cachoeira que havia nas terras da fazenda e escorregou no lugar mais perigoso. Seus longos cabelos, levados pelas águas, se abriram enroscando-se nas raízes e pedras e ela morreu. Quando acharam o corpo, chamaram o local de Véu da Noiva.
Agora, para quem gosta de histórias assustadoras, o livro é um prato cheio. Desde a lenda da moça fantasma, conhecida em quase todos os municípios do Estado até casos pontuais, como o da ''Árvores dos enforcados''. A lenda conta que na fazenda de um senhor holandês, morador de Arapoti (149 km ao sul de Jacarezinho), uma árvore chama a atenção: um abacateiro onde duas pessoas se enforcaram.
Uma delas subiu até o galho mais alto e se atirou. Anos mais tarde, com a fazenda já com um novo dono, o capataz do local ficou atormentado com a aparição de uma moça perto do abacateiro e decidiu se matar da mesma maneira. Dizem que até hoje as pessoas que passam perto desse abacateiro, chamado de árvore macabra, sentem-se mal ou têm visões. Verdade? A vantagem do livro é que ele não busca essa resposta, já que a intenção é apenas relatar as crendices mais conhecidas de cada região.
O projeto Cadernos Paraná da Gente tem coordenação de Renato Augusto Carneiro Jr. e pesquisa assinada por Cintia Maria Carneiro; José Luiz de Carvalho, Juliana Braga e Myrian Sbravati. O projeto já lançou os cadernos ''Pratos Típicos Paranaenses'' e ''Festas Populares do Paraná''. Para o próximo ano, estão previstos outros três lançamentos. Os cadernos são distribuídos para as bibliotecas dos 399 municípios paranaenses.

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