O exército evangélico brasileiro cresce não só com os recém-recrutados à fé, mas também por um regimento novo formado pelo público de literatura cristã. Responsável pelo aquecimento do mercado editorial segmentado, esse público realizou o prodígio da ''multiplicação dos pães'', representado pelo aparecimento de mais de 60 novas editoras no País, na última década.
''O povo evangélico é um dos maiores públicos de leitores no Brasil. Um gosto que começa pela leitura da Bíblia incentivada pelos pastores que depois orientam outros livros'', afirma Eduardo Pellissier, da Descoberta Editora, de Londrina, que em 11 anos no mercado possui um catálogo com 120 títulos publicados de mais de 80 autores, sendo mais de 90% brasileiros.
Grande parte desse percentual é de paranaenses, que conseguiram sair do círculo dos independentes para ser publicados por um selo, o que traz algumas vantagens, como logística de distribuição.
''É importante destacar que é uma chance importante para entrar no mercado editorial. Outra diferença é que as editoras conferem um aval ao material. Geralmente quando o autor se lança de maneira independente, a comercialização dos livros fica restrita às amizades e região onde mora. Já editoras conseguem levar a obra até para fora do País. Os livros que publicamos vão para a Angola, Moçambique, Portugal e Estados Unidos'', destaca o editor.
Antes de abrir o mar em direção à África, Europa e EUA, como no caso da Descoberta, os livros evangélicos provaram ser uma boa semente no Brasil. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta uma média de leitura de 2 livros por ano na população em geral, contra 4,5 entre os evangélicos.
Qual o segredo ou o milagre operado pelas editoras cristãs ?
Pellissier revela que a editora segmentada deve levar em consideração a produção de material, que define como suportável no mercado, mesmo trabalhando com autores que não são conhecidos do grande público. ''Entre os nossos escritores estão professores de seminário e estudantes de teologia'', completa.
Para que o Mar Vermelho do sucesso no mercado editorial não feche no meio dessa dura travessia, enfrentando, além do baixo índice de leitura brasileiro, o período de crise econômica mundial, as editoras evangélicas de pequeno e médio porte buscam estratégias de combate.
Ao contrário das grandes editoras, as nanicas têm um custo alto porque a tiragem dos livros é pequena, o que interfere no custo final. ''Esse é um problema do Brasil, que ainda é um país que lê pouco'', aponta Pellissier.
O primeiro livro lançado pela Descoberta foi ''Refrigério'', do pastor londrinense Messias Anacleto Rosa. O título faturou a premiação da Associação Brasileira de Editores Cristãos, na Categoria Novos Autores. Outras publicações da editora também foram premiadas.
Não são apenas os livros teológicos que fazem a cabeça do público evangélico. O catálogo da Descoberta oferece também romances de autoajuda, que no meio cristão é batizado como ''ajuda do alto''.
Diferente dos títulos de autoajuda seculares - gênero com uma vocação natural para best-seller, apesar do preconceito que desperta - os de ''ajuda do alto'' não têm apelo semelhante entre os leitores, disputando o mesmo interesse de outras publicações.
Dispostos a concorrer com a literatura evangélica norte-amaricana e inglesa, as editoras brasileiras apostam na publicação de romances, que ilustram os enredos com ensinamentos bíblicos.
Pellissier cita o livro '' A História de Sofia'', da autora brasileira Arlete Castro, que reside em Portugal e que está lançando o título nos dois países.
''Arlete escreve de uma forma romanceada, que é uma das melhores maneiras de transmitir os ensinamentos de Jesus'', enfatiza.
Porém, a literatura de ficção evangélica brasileira ainda é um Davi diante de Golias, como o best-seller ''Deixados para Trás'' (''Left Behind''), de Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins.
A série norte-americana vendeu mais de 70 milhões de exemplares publicados em mais de 70 idiomas, rendendo a produção de três filmes.
''A literatura de ficção cristã ainda é um mercado complicado para as editoras brasileiras. A produção americana é muito lida e quando chega no Brasil desembarca com o marketing de milhões de cópias vendidas''.

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