Lygia Fagundes Telles e Nélida PiÀon forneceram respostas às mesmas perguntas, comprovando que, apesar de seguirem caminhos paralelos, as escritoras revelam anseios semelhantes. Lygia preferiu entregar por escrito; Nélida falou por telefone à Agência Estado.
A literatura é uma opção de vida?
Lygia Mais do que uma opção, ela seria, conforme disse o poeta Ferreira Gullar, uma predestinação. Tantas vezes, nesses encontros com o leitor (que eu chamo de cúmplice), esse leitor fez perguntas em torno desse tema: a escolha da vocação, em latim, vocare, o chamado. Na juventude, a gente vai então de um lado para o outro. No meu caso, entrei para a Faculdade de Direito, a minha paixão por aqueles julgamentos no fórum, sonhava ser uma criminalista. Entrei também para a Escola de Superior de Educação Física, tão apaixonada pelas aulas práticas, ganhei uma medalha como cortadora no voleibol, esgrimia com tanta devoção, tanto fervor quando empunhava meu florete... Mas numa modesta casa de penhor (eu era uma estudante pobre) comprei minha primeira máquina de escrever, uma Remington portátil. E aquela busca nos sebos, Flaubert, Dostoievski, Marcel Proust - ah, minha alegria quando descobri Edgar Poe. A alegria quando bem mais tarde (eu já era uma jovem colonizada) descobri Machado de Assis. Atendi ao chamado antes mesmo de tomar consciência de que aquilo tudo era uma fatalidade. Não espero ser compreendida, espero ser lida. Se possível, amada confessei a um leitor que me pareceu preocupado porque alguns dos meus textos lhe escapavam. Não tem importância, respondi. Afinal, ninguém compreende ninguém, dificílimo conhecer pessoas. Coisas. Assim, chamo meu leitor de cúmplice, um parceiro nessa ambiguidade que é o ato criador. Ato que é desespero e apaziguamento. Ousadia e insegurança. Ansiedade e celebração. A criação literária? O indevassável. O mistério. Na tentativa de desembrulhar personagens, me desembrulho e até me deslumbro. Para me obumbrar de novo no meio da névoa. Então, a invenção vira verdade nessa viragem-voragem de ofício e vida. Quase peço desculpas por não ser mais otimista quando trato da crueldade. Do sofrimento. Do medo, ah, as crianças e os bichos, as maiores vítimas neste nosso País com suas crescentes desigualdades sociais. No ano de 1982, eu escrevi num fragmento (A Disciplina do Amor) que há três espécies em processo de extinção: a árvore, o índio e o escritor. Neste ano da graça que está no fim, eu gostaria de fazer uma retificação: o escritor não está desaparecendo, ao contrário, ele está se multiplicando como na bíblica multiplicação dos pães. O leitor é que anda meio raro e ainda assim é preciso apostar na esperança. No humor. Lembrar Emil Cioran que não queria ''a sabedoria da desilusão mas a sabedoria da ilusão que é o sonho''. O escritor pode ser louco mas não vai enlouquecer o leitor, ao contrário, pode até desviá-lo da sua loucura. Que pode ser corrompido mas não corrompe, que pode ser amargo e ainda assim vai ser a melhor companhia daquele que está na solidão.
Nélida Não tem outra. Eu me eduquei muito com a literatura, a literatura para mim sempre foi pedagógica, didática, ela me trouxe também um código ético, um código de conduta, um código de mirar o mundo. Acredito que cada vez que se escolhe uma palavra, ilumina-se um determinado instante da narrativa que vai afinal ganhar vida, de forma corpórea. Você faz uma opção de algum modo de dimensão moral, embora estética, porque a minha estética não é excludente, a minha estética não faz limpeza de sangue. Eu acho que o mal habita tanto a literatura quanto a vocação para o bem também, então eu não tenho esses problemas. Mas, mesmo que eu esteja imersa numa visão do mal proveniente da literatura, sei que existe o bem. Existe a Caritas no apóstolo São Paulo. A misericórdia, a compaixão. E a Caritas é a grande revelação do amor humano.

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