Literatura de raiz
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de janeiro de 2002
Francelino França Reportagem Local 
O jornalista Jota Oliveira abre picada para uma caravana de escritores locais que recuperaram histórias envolventes da colonização de Londrina. Nessa empreitada literária, Jota Oliveira faz amanhã o lançamento do livro Histórias do Campo sob dúplice chancela da Imprensa Oficial do Estado e Secretaria da Cultura de Londrina, dentro do projeto Crônicas de Londrina.
Histórias do Campo é o primeiro livro da série que deve reunir mais sete escritores, contando pequenas histórias de Londrina e região. Os textos agrupados em 24 crônicas concisas foram publicados na Folha de Londrina, no suplemento Folha Rural e nas edições de domingo do periódico, abrangendo o período de 1987 até 1993.
O autor nasceu há 61 anos numa fazenda pertencente ao Grupo Swift (fabricante de salsicha e apresuntado em lata), no município de Três Lagoas (MS), uma região propícia para germinar bons causos. Jota conta que sua mãe era uma exímia contadora de histórias e o pai incentivava na infância o garoto José Oliveira Santos a observar a natureza. Dessa união de estímulos, surgiu Jota Oliveira ouvinte e contador de causos. Ainda criança, ele montou em onça parda (garante que estava morta). Tínhamos ema e anta no quintal. Minha mãe criava uma loba guará. Vivíamos próximos a uma reserva indígena, rememora.
Na região fronteiriça predominava a música e o idioma guarani. Os papagaios da fazenda falavam guarani. Em Mato Grosso tinha muita assombração, relembra sorridente. Jota vai traçando a rota familiar e desembarca com suas reminiscências em Minas Gerais, região fabulosa em contadores de causos. Quando chegou em Londrina, em 1961, trabalhou em emissoras de rádio como noticiarista e locutor.
Na Rádio Atalaia chegou a trabalhar em rádio teatro. Seu ingresso na Folha de Londrina aconteceu em 1º de julho de 1966 e a publicação das crônicas no jornal recebeu o estímulo do jornalista Walmor Macarini. Em Londrina, o Mercado Shangri-lá tornou-se uma fonte perene de histórias para sua coluna. Uma centelha em cima de uma frase detonava as lembranças. Assim, surgiam as crônicas do patriarca, pai de três filhos e avô de quatro netas.
O livro é para ser lido num fôlego só. São crônicas saborosas com a emboscada da surpresa no final. Com um estilo elegante a passear por esse campo mítico que ele cria, o campo das nossas raízes, nossas mazelas e nosso bom humor, destaca o organizador da coletânea Domingos Pellegrini. São personagens matutos criados na aspereza da roça da noite escura, seres criados com as regalias da natureza farta.
Como observador, o autor espreita o movimento da natureza. As crônicas possuem uma linguagem enxuta, com histórias sempre divertidas e reflexivas repletas de termos do vocabulário caipira. Jota Oliveira concilia o conhecimento dos anos de labuta no jornalismo rural com a histórias vividas por ele nesse ambiente.
O autor narra os fatos macerados no realismo mágico, dando voz a personagens escorados apenas na sobrevivência cotidiana. A crônica A Pescaria se insere nessa característica. Bastião, dono de oito cachorros, conseguia se fartar de peixe com a ajuda dos cachorros pescadores. O autor revela que muitos são personagens reais, com nomes trocados ou situações adaptadas. Nesse primeiro livro (ele tem material para mais dois), Jota Oliveira mostrou ser um autor com domínio da concisão no entalhe literário.
As crônicas traçam o inconsciente coletivo de uma região com formação multi-étnica. Como testemunha ocular dos fatos, o jornalista Jota Oliveira deixa na literatura o substrato de histórias regionais, onde a urbanização não alcançou. Há um traço que permeia as histórias: o mistério. É diante do desconhecido e misterioso que as histórias de Jota Oliveira tornam-se realisticamente fantásticas. O autor reuniu nesse livro de crônicas um atlas interior de seres aparentados no comportamento e nas crendices.
Outra característica reunida nesse livro de crônicas são os nomes, todos interessantíssimos, alguns descritivos do físico, outros reveladores da personalidade. Dentre os personagens das 24 crônicas figuram Mané Onça, Zefa Peituda, Bastião Cançado, Sacramento, Zezinho Linguiça, Danilo Papudo, Manoel Fala Mansa, Caéba, entre outros.
Os próximos lançamentos da série Crônicas de Londrina trazem os nomes de Nelson Capucho, Paulo Briguet, Lélio Cesar, Walmor Macarini, Apolo Theodoro, João Arruda e Edson Vicente, o Jerê. No total, serão publicados 8 mil exemplares. Da edição de Jota Oliveira, 500 exemplares serão distribuídos às bibliotecas públicas do Paraná e a 40 salas de leituras das escolas municipais, graças à parceria com a Imprensa Oficial do Estado. Os autores vão colorir um imenso painel da geografia humana da região.
No projeto, o Secretário de Cultura, Bernardo Pellegrini, adianta que até as comemorações dos 70 anos de Londrina serão lançados mais três coleções reunindo fotógrafos, poetas e pessoas proeminentes que passaram pela cidade. A Telepar pretende no próximo mês reunir sete autores da coleção Crônicas de Londrina para um lançamento coletivo dos livros.
Serviço: Histórias do Campo, de Jota Oliveira, 78 páginas, primeiro volume da coleção Crônicas de Londrina, será lançado amanhã, às 20 horas, na Biblioteca Pública Municipal. Projeto editorial de Bernardo Pellegrini, coordenação editorial de Domingos Pellegrini e projeto gráfico de Arthur Boligian Jr. Preço de cada exemplar: R$ 15,00.


