Ilustração/Douglas MayerA coisa começou assim. Estava em Curitiba para fazer cobertura de ópera do Guaíra. De repente, sinto cansaço de sopranos, tenores, barítonos, baixos, mezzos e procuro refúgio numa livraria. Vejo um livro que parece em espanhol ‘‘Luna Caliente’’ e procuro saber quem é asse autor. O vendedor, solícito, me diz: ‘‘É um grande escritor argentino’’. Leia a contracapa. Agradeço e digo que jamais leio contracapa porque prefiro ter opinião própria e não ser induzida por ninguém. Então, ele me oferece um cafezinho, cadeira e mesa para folhear. Nem desconfia qual é a minha horrível profissão.
Abro a primeira página e levo dois sustos: o escritor me ‘‘atrapa’’ de cara, lança seus tentáculos e fico aí aprisionada. Mas vem o segundo susto e meu talento que é também meu maior defeito, vem à tona: logo na primeira página leio a palavra ‘‘janta’’ em lugar de jantar. Peço aos meus anjos tutelares que anulem minha profissão e me deixem mergulhar em ‘‘ Luna Caliente’’ sem mordaças. Eles me atendem. Percebem que já estou apaixonada por Mempo Giardinelli. Amor os anjos respeitam. Na terceira página chamo o vendedor e peço dois exemplares. Ele me fita com assombro. Tranquilizo-o: ‘‘Este exemplar é pra mim, que não empresto, e o segundo é para meus amigos conhecerem este maravilhoso escritor’’. Aí ele entende e volto ao Rio mergulhada inteira no livro. Fico, então sabendo que em 1983 foi escolhido como melhor novela do ano no México, pela primeira vez dada a um estrangeiro, e apresentada com entusiasmo por Juan Rulfo, autor do antológico ‘‘Pedro Páramo’’.
De ‘‘Luna Caliente’’, que está esgotada, só posso dizer que sinto numa delirante narrativa, o erotismo de Henry Miller, a criatividade de Edgar Allan Poe, a ficção de Bradbury e de forma contundente e fortíssima o estilo envolvente e dilacerante do próprio Giardinelli. É um escritor que foge dos parámetros dos hispanoamericanos que se apossaram do mundo literário (Garcia Marquez, Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Alejo Carpentir, Ernesto Sabato, Julio Cortazar, Etc.). É uma novela que se lê sem parar e depois nos deixa com pesadelos, arrepios, torturas. Se não souber reagir à força traumatizante da relação amorosa de Ramiro e Araceli, pode acabar no divã da Psicanálise ou ouvir choro de gatinhos famintos noites inteiras. Escolha o seu próprio equilíbrio.
PalavrasMempo Giardinelli passou pelo Brasil este ano com ‘‘Impossível Equilíbrio’’, lançado pela Record na Bienal do Livro. No centro de cultura do consulado da Argentina, no Rio, deu uma conferência. Na contracapa suas próprias palavras falam da vocação do escritor: ‘‘Para mim, a literatura é um caminho de conhecimento, de indagação permanente, uma luta contra nossa própria mediocridade em busca de novas formas. A literatura não me protege. Ela pode me salvar, mas com a condição que eu a aborde com audácia. Só a literatura pode sanar, salvar e curar. Só a literatura nos redime’’. ‘‘Impossível Equilíbrio’’ é um romance que os ecologistas vão adorar, os gozadores vão rir, os políticos honestos vão se divertir, os desonestos e oportunistas vão se irritar, e o leitor sairá mergulhado em ‘‘hipopótamomania’’. Sim, os personagens centrais do livro são quatro hipopótamos importados por uma cidade invadidas por camarotes, alimento predileto dos bichinhos africanos. A saga desses adoráves animais em terras tão distantes e transformados em estrelas do jornalista argentino, é uma das mais belas críticas ao ‘‘sistema’. Eles se transformam na metralhadora de guerrilheiros ecologistas, todos formados no assunto ‘‘hipopótamo’’ em que até o dicionário da Academia Espanhola comete erros. Quem entende do assunto é Mempo Giardinelli.
TrajetóriaNascido em Resistência, no Chaco argentino, é dos raros escritores que se consagraram saindo dos temas portenhos para mergulhar na selva como Horácio Quiroga, Ferreira de Castro e Eustáquio Rivera, com um estilo que impacta pela linguagem às vezes crua, às vezes onírica, sempre mágica e altamente humorística, especialmente em ‘‘Impossível Equilíbrio’’. Recomendá-la ao leitor é audácia pura. Minha área é ópera, música, ballet, eventualmente literatura e política. E Mempo Giardinelli, na sua conferência, deixou bem claro que não acredita em críticos porque muitos grandes escritores não chegam aos auditórios das universidades para falar daquilo que entendem, porque os críticos entravam seus caminhos. Por que essa mágoa ou menosprezo? Ganhou Prêmio Nacional de Literatura do México em 1983 com ‘‘Luna caliente’’ e em 1993 o ‘‘Prêmio Rómulo Gallegos’’ com ‘‘Santo Ofício de la Memória’’, na Venezuela. O que disseram os críticos argentinos? Certamente o que é bem típico dos que detem o poder literário no seu país: Saiu de Buenos Aires ‘‘no es gran cosa’’. Mas Mempo Giardinelli é.
No Brasil vai estourar por muitas razões (além da esfuziante e hilariante narrativa, surpreendente e riquíssima em estilo e elegância) pela edição caprichadíssima, com um hipopótamo na capa, e pegadas dos bichinhos em página interior. Assim como ‘‘Santa Evita’’, de Tomás Eloy Martinez na edição brasileira deu um banho estético na edição argentina (a capa mais feia que se fez até hoje) ‘‘Impossível Equilíbrio’’ vai conquistar os leitores e fazer as pazes com os críticos. Nós, os críticos construtivos, não sabemos ‘‘fazer’’ as coisas mas... sabemos ‘‘como’’ se fazem, e o Brasil tem uma linhagem de críticos que nada devem aos colegas argentinos. E não têm preconceitos interioranos. Os maiores escritores do Brasil sempre surgiram das ‘‘periferias’’ da grande capital.

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