A linguagem usada no mundo virtual desconhece limites quando o objetivo é agilizar a comunicação entre os internautas. Agora até a literatura está se adaptando à era das mensagens rápidas, em fenômeno que já vem sendo chamado de "Twitteratura" - textos artísticos produzidos pelo Twitter no limite de até 140 caracteres.
Criado em 2006, o Twitter rapidamente se tornou uma das redes sociais mais populares do planeta. A plataforma, que contabiliza 500 milhões de usuários, é usada por alguns escritores premiados como Fabricio Carpinejar. Após receber o Prêmio Jabuti 2009 na categoria Contos e Crônicas, o gaúcho lançou no mesmo ano o livro www.twitter.com/carpinejar. A publicação apresenta 416 das mil máximas escritas por ele no Twitter até então.
A linguagem direta e precisa que caracteriza a Twitteratura já vem sendo trabalhada pelo escritor Marcelino Freire muito antes do surgimento do Twitter. Ganhador do Prêmio Jabuti 2006 com o livro "Contos Negreiros", Freire propôs a 100 grandes autores brasileiros que escrevessem microcontos com apenas 50 letras. Os textos, escritos por nomes de peso como Manoel de Barros, Millôr Fernandes e Dalton Trevisan, resultaram na coletânea "Os cem menores contos brasileiros do século", lançada em 2004, pelo Atelie Editorial.
"Muitos dos escritores que participaram deste projeto no início se mostraram resistentes à ideia. Outros encaminharam textos com 50 palavras ao invés de 50 letras e achavam um absurdo quando eram informados do limite imposto. Porém a narrativa direta e concisa deve ser uma das prerrogativas básicas de um bom escritor", argumenta Freire em entrevista por telefone à FOLHA.
O escritor pernambucano defende que os textos concisos não são característicos dos tempos modernos. "Na Bíblia está escrito que no princípio havia apenas o verbo, e foi escrita em pequenos versículos para facilitar a memorização do provérbios religiosos. Além disso, grandes escritores como Machado de Assis têm livros com capítulos curtos resumidos em poucas palavras", observa Freire.
O autor de "Contos Negreiros" afirma que escrever menos para dizer mais permite uma leitura mais dinâmica. "Existem muitos textos curtos, críticos ou divertidos que circulam na internet e que demonstram uma literatura muito mais viva do que muitos dos livros produzidos na Academia Brasileira de Letras", alfineta.

Brevidade e instantaneidade
Organizador do livro "Ciberespaço: mistificação e paranoia" (2008) e autor de 17 artigos e capítulos de livros sobre produção literária em meio digital, o professor do departamento de Letras da Universidade Estadual de Londrina Alamir Aquino Corrêa destaca que a produção literária pelo Twitter ainda é considerada escassa. "O Brasil é o segundo país com maior número de usuários no Twitter. Mas em termos de produção literária, os esforços ainda deixam muito a desejar, mesmo em face de tentativas de concursos literários no Twitter", afirma.
No entanto, o docente destaca a importância da twitteratura na contemporaneidade. "A palavra precisa concorrer com vários outros modos muito sedutores de comunicação e de criação, como os videoclipes, propagandas no youtube, webmarketing. Todos fundados em exposição em pouco tempo. Eu diria que a twitteratura é uma tentativa de manter vínculos, uma vez que há uma relação direta entre produção e recepção, sem os mecanismos de edição encontrados no meio impresso. As suas brevidade e instantaneidade também carregam o componente da fugacidade, pois raramente algum dos textos ou tuítes consegue se manter 'vivo' por muito tempo", avalia.
Corrêa destaca ainda que o fato dos textos serem curtos não compromete o objetivo da mensagem. "Qualquer história pode ser contada brevemente e com algum grau de profundidade emotiva. Os adágios populares costumam ser exemplos morais, cuja capacidade emotiva está em sua brevidade de expressão. Mas há de se observar que é muito difícil ser profundo e breve, pela própria circunstância da construção do ambiente psicológico. O que se vê nos tuítes brasileiros fica mais no nível do dito jocoso, algo que revela muito da nossa tradição de picardia a la Gregório de Matos", contrapõe.

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