Desde minha infância acompanhei o curioso hábito que tinha meu pai de ler almanaques de todos os tipos. Semanalmente chegava de seu trabalho com alguma novidade entre suas coisas. E lá estava, estalando de novo, o almanaque conseguido gratuitamente no balcão de alguma farmácia ao lado do também inseparável guarda-chuva. Os almanaques eram para nós a literatura mais acessível. Além das receitas de chás para todos os tipos de doença era também possível saber mais sobre as novidades da indústria farmacêutica.
Apesar de que os almanaques das farmácias permaneceram por muito tempo preenchendo algum vazio de nossas leituras, meu pai encontrou outra fonte mais completa de informações no almanaque do pensamento. Este sim! Que riqueza de detalhes. Quanta coisa útil para nossas vidas podíamos encontrar ali, como por exemplo, as fases da lua, ou o ciclo das marés. Mas imbatível mesmo eram os pormenores do horóscopo.
Sempre havia pensamentos de ex-presidentes americanos, de estadistas ingleses, de um ou outro escritor e algum filósofo mais clássico. Embora de tonalidade barata, acredito que tenha sido a minha primeira lição de filosofia e por ali andei arriscando algumas palavrinhas meio soltas a imitar poemas.
Só agora percebo que aquelas revistinhas que muitas vezes chegavam respingadas de chuva tiveram uma parcela importante em minha formação como leitora. Por outro lado, meu pai esforçava-se para comprar jornal quase todos os dias e, acredito que por isso, as revistinhas já poderiam ser consideradas figurantes neste conjunto. Era quase certo que, ao levantar o jornal, cairia de dentro uma revistinha diferente.
Mas os almanaques tornaram-se, ao longo do tempo, menos requisitados, em vista da assiduidade do jornal que trazia as notícias quentinhas, desbancando pensamentos e receitas. Apesar de se interessar pelo jornal, meu pai ainda mantém uma curiosidade de menino ao apresentar-nos com espanto novas receitas de chá ou sugestão do uso de frutas e vegetais para males diversificados publicadas em seus precisos almanaques.
Maria Helena de Moura Arias é Jornalista, Mestre em Letras e trabalha na Editora da UEL.

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