Literatura como vivência: antologia de 14 escritores londrinenses
“Escrever-se: Gestos de Memória, Afeto e Poder” será lançado no domingo (15) no Sesc Cadeião; confira a entrevista com a editora Amanda Damasio
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quarta-feira, 11 de março de 2026
“Escrever-se: Gestos de Memória, Afeto e Poder” será lançado no domingo (15) no Sesc Cadeião; confira a entrevista com a editora Amanda Damasio
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 

A literatura pode ser sensível e pode ser violenta. Pode ser um refúgio ou uma rua caótica. Pode ser uma flor rude ou um espinho delicado. Pode revelar mundos ou desvendar pessoas. Pode acender estrelas ou apagar incêndios.
A literatura também ser uma grande vivência, como defende a escritora Amanda Damasio em suas oficinas de escrita literária ministradas em Londrina ao longo dos últimos anos.
Em suas palavras, escrever pode ser uma arte criada a partir de experiências pessoais: “Escrever é se ouvir e ouvir o outro. Elaborar. Criar imagens para as nossas glórias e nossas tragédias. Isso faz nossa compreensão de nós ou do mundo ir muito além. E bastam para isso papel e lápis.”
Como fruto das oficinas de Amanda Damasio, a editora Outra está publicando “Escrever-se: Gestos de Memória, Afeto e Poder”, livro que reúne poemas e narrativas de 14 autores londrinenses. O lançamento acontece no domingo (15) no Sesc Cadeião Cultural, às 15h30.
O resultado são textos de forte dimensão emocional, uma literatura que resgata memórias e afetividades na prática da escrita de si. Integram a antologia Annie Wielewicki, Bárbara Ondei, Elza Soares Dutra, Gabriel Souza Freitas, Gabriel Viruez, Isabela Torezan, Isabeli Russo, Izac Silva, Karoline Araújo, Mariana Laranjo, Morinele Petinelle, Mylena Ranucci e Rute Gaia.
A seguir, Amanda Damasio, organizadora de “Escrever-se: Gestos de Memória, Afeto e Poder”, fala sobre as oficinas, a prática de “escrever-se” e do potencial literário de Londrina.

Você trabalha há anos com oficinas de escrita literária em Londrina e o livro “Escrever-se – Gestos de Memória, Afeto e Poder” é fruto direto dessas oficinas. Como são essas oficinas que envolvem escrita, lembranças e afetividades?
Minhas oficinas são sempre pensadas a partir do encontro. Nos encontramos para escrever juntos – lemos, fazemos exercícios de criação e partilhamos. Nunca é sob a perspectiva de ensinar um jeito “certo” de escrever, mas de tirar dos alunos o que já existe neles, reformular e repensar os textos, e principalmente, dividi-los. Essa proposta, em especial, tem o objetivo de defender a importância da escrita de si, dando foco à memória, a sentimentos considerados desimportantes, e a garantir para os alunos um espaço de poder onde compartilhar seus escritos. Nesse caso, um livro. Mas poderia ser um microfone num sarau, por exemplo.
O livro sugere a prática de “escrever-se”, algo relacionado ao conceito de autoficção. O que é escrever-se?
O que chamamos de escrita de si pode ter muitas facetas e nomes, todos eles sendo discutidos à beça nas universidades, já que é uma da tendência da literatura atual. Sendo bastante prática, o que proponho com o “escrever-se” é um olhar para uma criação de arte que se faz a partir das vivências do sujeito. Gosto do termo autoficção nesse caso, porque sugere que não é só um relato frio, e ainda que também não é só verdade, tem um pouco de invenção. Defendo que escrever sobre si não tem nada de automático nem de egoísta. É produzir arte da forma mais sincera possível. E é coletivo: quem fala de si fala também dos outros, como apontou para nós o escritor Édouard Louis, mestre na técnica. Além disso, passamos a reconhecer que nossa vida vale a pena ser contada, seja ela como for.

Nos poemas de “Escrever-se – Gestos de Memória, Afeto e Poder” escritoras e escritores entram em suas próprias emoções e memórias para criar literatura e sair mais consciente de si. Escrever pode ser terapêutico?
A literatura tem muito poder. De confortar alguém, de fazer doer, de aumentar ou mitigar feridas. Acho que a abertura que a escrita de si pede sempre faz com que o sujeito elabore alguma questão, o que pode deixar tudo mais leve. Mas ele precisa ter condições mínimas e estar disposto para olhar com coragem para o que surgiu na página. A proposta de todo o meu trabalho de pesquisa é pensar a literatura como uma vivência. Ou seja, não só o texto morto na página, mas a experiência de ouvir, ler, escrever, prestigiar um sarau, declamar em voz alta, se publicar, etc. A literatura é um instrumento poderoso não só para quem a escreve, mas para quem a experimenta, independente do jeito.
No prefácio do livro, Rute Gaia afirma que “escrever é um ato de coragem”. Por que escrever pode ser considerado um ato de coragem?
Depende principalmente de quem está escrevendo. Se falamos das mulheres, qualquer escrito nosso pode ser revolucionário. Nós fomos socializadas para servir e calar, nada mais. Qualquer mulher que permita desejar ou expressar outras coisas está enfrentando, ainda, um grande paradigma social, que está longe de ser derrubado. De qualquer forma, escrever e escrever sobre si, é uma abertura que damos de nós aos outros. É custoso, uma comunicação cheia de ruídos e interpretações possivelmente erradas, mas também, como eu falo em todas as oficinas que dou, é dar às pessoas uma nova possibilidade de nos amar. Nada como ver alguém que te ama com seu livro na mão, te apoiando via metáfora. É um amor diferente que só quem publica consegue experimentar.
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No posfácio de “Escrever-se: Gestos de Memória, Afeto e Poder” você diz que o Brasil é um país que precisa “de escritores que busquem as histórias escondidas”. Que histórias são essas?
O Brasil é um país sem memória. Não só porque reelegemos, às vezes, crápulas que fizeram coisas horrendas há pouco tempo, mas também porque não protegemos o que é nosso, o que deve ser lembrado. As casas de nossos escritores mais lidos e prestigiados são demolidas. Espaços de cultura vão à falência e são esquecidos, museus pegam fogo, as universidades sofrem. É um projeto de apagamento. São poucos os museus, por exemplo, que detalham a ditadura com o horror que deve ser detalhado – para nunca mais repetirmos aquilo. Por sorte, temos milhares de escritores documentando tudo, e devemos publicá-los para as histórias não ficarem mais escondidas. Histórias pessoais que reflitam um tempo são importantíssimas – aí o desejo de fazer uma antologia, por exemplo.
O que você compreende como revelador em todo seu trabalho de potencializar a prática da escrita nas pessoas?
Acho que é muito interessante acompanhar de perto o tanto que as pessoas têm dentro de si e que pode ser transformado em arte, além disso, como a coletividade na escrita pode ser potente. Na editora Outra, onde trabalho, temos um Clube de Escrita semanal com mais de 40 autores. Nossos encontros presenciais mensais são extremamente simples e extremamente emocionantes. Sentamos juntos, escrevemos e lemos em voz alta. É transformador. Tudo isso me faz perceber o potencial literário que temos aqui em Londrina e para o qual não se dá o devido valor nem a devida atenção. De qualquer forma, a editora Outra faz de tudo para que esses autores tenham espaço, voz e motivos para continuar escrevendo.

SERVIÇO:
“Escrever-se: Gestos de Memória, Afeto e Poder”
Organização – Amanda Damasio
Autores – Annie Wielewicki, Bárbara Ondei, Elza Soares Dutra, Gabriel Souza Freitas,
Gabriel Viruez, Isabela Torezan, Isabeli Russo, Izac Silva, Karoline Araújo, Mariana
Laranjo, Morinele Petinelle, Mylena Ranucci e Rute Gaia
Editora – Outra
Páginas – 80
Quanto – R$ 50,00 (no dia do lançamento R$ 45,00)
Onde encontrar: www.editoraoutra.com.br
Lançamento:
Quando – Domingo (15), às 15h30
Onde – Sesc Cadeião Londrina (Rua Sergipe, 52)
Quanto – Gratuito





