Literatura censurada no País de pouca leitura
Uma combinação indigesta, assim pode ser considerada a proibição de obras literárias, prática sem fundamentação que atinge a liberdade dos leitores
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de março de 2020
Uma combinação indigesta, assim pode ser considerada a proibição de obras literárias, prática sem fundamentação que atinge a liberdade dos leitores
Walkiria Vieira - Grupo Folha 

Um ponto final na ignorância. Quem dera o sinal ortográfico fosse capaz de encerrar discursos errôneos. Mas o espaço para a reflexão já serve de refrigério quando a Literatura é alvo de censura. Não é de hoje que obras e escritores entram nos índices dos proibidos - e privam a oportunidade o leitor da real perspectiva. Não raro, quem repassa a opinião, nem mesmo conhece o que reproduz - isso é fato. Insano, profético, imoral . Pornográfico, violento ou que faz apologia ao mal. Não se sabe ao certo quantos são os contos proibidos e quantos ainda estão por ser.
Lançado em 1875, “O crime do Padre Amaro”, de Eça de Queirós, gerou grandes protestos de grupos religiosos ao ir de encontro ao celibato clerical. Uma das consequências foi a proibição em salas de aula de Portugal. “Feliz Ano Novo”, de Rubem Fonseca, é de 1975. Foi censurado pelo DIP- Departamento de Imprensa e Propaganda no regime militar e teve a publicação e circulação proibidas, sob a alegação de conter “matéria contrária à moral e aos bons costumes”- além de ser acusado de fazer apologia à violência. O livro se tornou um best-seller imediato, mas as narrativas de sexo, violência e conflito incomodaram.
Na China, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, foi banido por dar aos animais as mesmas qualidades que os homens e colocá-los no mesmo nível hierárquico. Exemplos não faltam como a caça à Harry Potter, nos Emirados Árabes. A coleção de de J. K. Rowling, foi censurada por, supostamente, incentivar a bruxaria. Em lugares variados ou por motivos curiosos, feito praga sem controle, a proibição se multiplica e não faltam atrocidades. A criatividade, por sua vez, entra no combate ao que não corresponde à verdade, como é no caso de “Tessa: A gata”, de Cassandra Rios. A escritora teve muitos livros censurados durante a ditadura e na capa dessa obra há um slogan “Um novo sucesso da autora mais proibida do Brasil”.

Do ponto da bibliotecária e docente do Departamento de Ciência da Informação da UEL ( Universidade Estadual de Londrina), Sueli Bortolin, o que faz os livros serem tão visados e alvo de equívocos - não só no Brasil - é a desinformação e o preconceito. “Há um movimento no Brasil e no exterior de 'caça às bruxas' - até contra a pacata Bruxa Onilda, que querem tirar das bibliotecas", alerta Bortolin. “Biblioteca é um espaço plural e a literatura infantil "desemburra" e cura”, define.
A docente explica que as crianças leem de forma aberta e de acordo com o acervo pessoal e social. Elas não têm medo e os pais não precisam ter medo também. "O que propomos é uma reflexão sobre um dos importantes papéis da literatura, que é o de construir relacionamentos. Mas há algum tempo, há um moralismo sobre a literatura infantil como se isso fosse perigoso", expõe. "Um exemplo é acusar um livro de Ana Maria Machado de incitar o suicídio", critica. Publicado em 1983, "O menino que espiava pra dentro" passou a ter interpretações distorcidas cerca de dois anos atrás e deixou chocada a escritora que ocupa, desde 2003, a cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras. "Trata-se de uma miopia, uma perseguição e nossa campanha é para que não haja censura, pois a criança não tem olhar preconceituoso e não cabe a qualquer um o direito de ser censor", reforça Bortolin.

Por que a Literatura é uma área tão vulnerável?
Para o professor do Departamento de Educação da UEL e Idealizador do projeto Palavras Andantes - da Secretaria Municipal de Educação - Rovilson José da Silva, essa vulnerabilidade não é um problema recente. "Há um contexto histórico e social por trás disso e nossa sociedade carece de acesso ao livro. Quanto mais dificuldade de acesso, mais difícil será entender isso", afirma. "Silva adverte que os livros, as histórias e a literatura enquanto arte contribuem para a formação e amadurecimento psicológico da criança. "Quando pensamos em constituir um acervo, há um projeto e tudo é feito de acordo com princípios pedagógicos. Professores, bibliotecários e coordenadores pedagógicos levam em conta a fase escolar, o período de desenvolvimento do aluno e os livros são oferecidos nesse contexto de recomendação pelo Ministério da Educação com clareza".
Sobre possíveis dúvidas, Silva alerta que os responsáveis devem procurar a escola. "Há muita informação distorcida sendo reproduzida. Vivemos um momento de polarização, de turbulência política e social e não devemos deixar que isso se reflita na arte. É necessário que antes de se deixar levar por uma informação incerta, olhe-se os mecanismos que envolvem todos e não apenas de um lado ou de outro. Há movimentos que surgem para controlar, para amarrar o pensamento em uma única diretriz, enquanto a literatura nos oferece diversas maneiras de compreender o mundo".
Ele orienta: "A escola não está imune a críticas da sociedade ou dos pais. Entretanto, os pais e a sociedade também devem saber que a escola se organiza, como ela estrutura pedagogicamente os conteúdos - no caso da leitura, o objetivo é que os alunos ampliem seu contato com o livro, com as histórias, isso contribuirá para a formação e amadurecimento psicológico da criança. Julgamentos irresponsáveis podem colocar um profissional ou equipe em prol da informação em demérito. Se pais ou responsáveis têm dúvidas, devem procurar a escola para conversar e compreender a perspectiva pedagógica e qual o benefício que a literatura traz à formação infantil ", ratifica.


