Literatura bem variada
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segunda-feira, 23 de março de 1998
Julio Olaciregui France Presse 
ReproduçãoRubem Fonseca: explorador do contexto urbano e do novo romance policialUm tucano, pássaro dos tupinambás, de penas pretas e amarelas, oferece à França com seu bico, verde como a bandeira brasileira, dois simbólicos volumes no cartaz do 18ºSalão do Livro de Paris, consagrado este ano ao Brasil e que foi inaugurado quinta-feira à noite pelo presidente francês Jacques Chirac.
Esses dois livros no bico do tucano, palavra de origem tupi, uma das maiores tribos do Brasil pré-lusitano, poderiam ser Macunaíma, a obra-prima de Mário de Andrade, ou Grande Sertão: Veredas, o grande romance de João Guimarães Rosa. Também Bahia de todos os santos, de Jorge Amado ou Casa Grande e Senzala, do sociólogo Gilberto Freyre, obras máximas da cultura brasileira estudadas há anos nas universidades da França.
Desde as crônicas de viajantes no século XVI sobre o cênico ritual de canibalismo dos tupinambás, até Tristes trópicos, de Levi-Strauss, a alma mestiça do Brasil, negra e lusitana, tem interessado e seduzido os franceses.
Os 36 escritores brasileiros convidados representam todas as tendências que podem se achar na atual literatura mundial, apimentada, certamente, com o condimento mítico próprio ao Brasil.
Os franceses já conhecem muito bem Jorge Amado e Paulo Coelho, mas estes dois famosos nomes não são mais do que a parte visível do iceberg que é a literatura brasileira contemporânea.
ReproduçãoLygia Fagundes Telles: expoente de uma língua que só se fala no Brasil
Para quem busca sensações diferentes, a viagem ao imaginário brasileiro cumpre com suas múltiplas promessas: de Rubem Fonseca, explorador do violento universo urbano e criador de uma nova literatura policial, a Marilene Felinto, voz cálida das mulheres de Pernambuco, herdeira da grande Clarice Lispector, editada há mais de 20 anos pela Les éditions des femmes.
De Fernando Gabeira, autor do depoimento romanceado O Que é Isso, Companheiro?, a Moacyr Scliar, o médico que libera o fantástico universo judaico aclimatado no Rio Grande do Sul.
Os editores franceses parecem continuar com a mesma curiosidade dos descobridores do século XVI e oferecem brilhantes traduções de autores jovens como Patrícia Melo, 34 anos, cujo romance O matador é uma jóia de suspense, ou Bernardo Carvalho, 37 anos, cujo propósito é criar um mundo brasileiro com seus relatos.
Os atuais escritores brasileiros, entre eles Edilberto Coutinho, autor do conhecido livro de contos Maracanã adeus, e Ligya Fagundes Telles escrevem, como assinala Carvalho, em uma língua que não se fala em outra parte do mundo, nem em nenhuma das ex-colônias portuguesas, nem menos ainda em Portugal.
A grande vantagem que o leitor vai tirar do Salão do Livro é a possibilidade de descobrir um mundo fascinante, além do desejo de exotismo, plasmado em numerosas obras, herdeiras dos grandes nomes citados.
Há para todos os gostos nesta literatura do Brasil, com livros de realismo social, regionalista, psicológico ou de franca escrita experimental, como tenta resumir as tendências o enviado especial de LExpress ao país do Carnaval e da canela.
A editora Métailié, que tem uma coleção chamada Biblioteca brasileira, com 16 autores, propõe uma antologia de Contos do Brasil, que é uma boa introdução para se orientar no barroco e sensual labirinto da literatura brasileira contemporânea.
Como se fosse pouco, a Associação Bem-te-vi para a difusão da cultura brasileira apresenta, durante os dias do Salão do Livro, no cinema Action Christine, uma retrospectiva, de 1926 a nossos dias, de filmes brasileiros adaptados de obras literárias.


