Literatura bem-humorada
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sábado, 14 de agosto de 2010
Adriana Ito<br> Reportagem Local 
Quem ainda acredita na literatura sisuda, cheia de pompa, profundamente complexa e - portanto - para poucos é porque não conheceu escritores como Fabrício Carpinejar e Marcelino Freire. A dupla faz parte de uma geração que cada vez mais reconhece seu ofício como verdadeiramente uma profissão - com os deveres, responsabilidades e direitos que lhe são intrínsecos.
Ao invés de se camuflar à poeira dos livros em suas casas, esses autores têm saído às ruas, oferecendo oficinas, dando entrevistas, participando de debates e divulgando seus trabalhos. Assim, eles não têm vergonha de assumir que escrevem também para ganhar dinheiro, na segurança de quem sabe muito bem o que está fazendo e de que forma. Verdadeiros, não precisam fazer pose para impor respeito; conquistam o leitor pela receptividade e bom humor.
De passagem por Londrina na última quarta-feira, quando participaram de mais uma etapa do projeto Autores & Ideias do Sesc, Carpinejar e Freire debateram o tema ''Narrativas breves na era do Twitter'', mas também fizeram mais: mostraram que o humor é essencial para se levar a literatura a sério.
E como são bem-humorados esses dois vencedores de prêmios Jabuti. Em entrevista à FOLHA, não faltaram as piadinhas comuns a dois amigos de longa data. Afinal, como bem observou Carpinejar, ''é preciso ter a liberdade de falar bobagem, que é onde a inteligência respira''. Confira alguns trechos da conversa:
Como o twitter pode ser útil para a produção literária?
Fabrício Carpinejar - É uma forma de colecionar assobios, colecionar frases avulsas, que não teriam que ser viúvas de um enredo. Apontamentos que a gente nunca ia colocar em um livro. Lampejos, claridades órfãs. E eu acho tão importante isso.
Marcelino Freire - Mas é bom lembrar também que essa coisa do twitter de escrever curto não foi inventada agora, não. Já se escrevia curto há muito tempo.
Carpinejar - Não é o pessoal que aprendeu a escrever curto por causa do twitter. é o twitter que percebeu uma tendência.
Freire - O Mário Quintana se daria muito bem no twitter. O Millôr Fernandes já fazia o microrresumo de um clássico da literatura em duas linhas. Hoje tem pessoas fazendo esses resumos em 140 caracteres. Kafka já escrevia curto, Machado de Assis já escrevia curto.
Carpinejar - A concisão é um dos elementos principais da literatura.
Freire - É, não importa se você esteja escrevendo um microconto ou mil páginas de um romance.
Carpinejar - É quebrar palavras para manter intacto o silêncio. Tu quebra a palavra, mas o silêncio é necessário, porque o silêncio é do leitor.
A internet tem tornado os escritores mais acessíveis. Hoje em dia o leitor conhece o autor primeiro na rede, e a partir daí ele tem os textos publicados.
Freire - Tem muitos autores que surgiram primeiro na internet, não tinham nem livros publicados. Daniel Galera, Daniel Pellizari. A Clarah Averbuck era conhecidíssima na rede. Não há dúvidas de que a internet é uma grande ferramenta de divulgação para o autor que está começando. Mesmo autores consagrados estão aderindo, porque é um meio importante para a circulação das ideias, para a divulgação do seu trabalho.
Mas é importante saber filtrar, também, não? Hoje em dia qualquer um diz sou escritor, sou poeta...
Freire - Mas esses também publicavam. A vantagem é que agora não estão gastando mais papel.
Carpinejar - E outra coisa, a gente tem que dar o direito à mediocridade. A mediocridade tem que ter o direito de existir. A gente fala que as pessoas não podem falar que são poetas ou romancistas porque não são geniais. Fazemos uma conversa fiada de que só queremos grande literatura. É mentira. Deixa a pessoa publicar algo ruim se ela quer publicar. Só avisa pra ela que é ruim. Tem pessoas que não querem fazer literatura, querem publicar livro, é diferente. Quer fazer sessão de autógrafo com a família, assim por diante.
Freire - Quer publicar muito mais do que escrever...
Carpinejar - Quer publicar, publica. Mas não vem ficar fazendo cena.
Freire - Tem os que publicam que têm pose de escritor, de nojo. Ganha um prêmio Jabuti e se sente um jabuti da literatura, vira um bispo, beije minha mão. É importante que as ferramentas existam, que são de divulgação para o trabalho que você está fazendo. Agora um imbecil será sempre um imbecil. Na frente do computador ou não.
É impressão minha ou a geração de vocês tem mais consciência de que ser escritor é uma profissão, um ofício?
Carpinejar - Não sei se temos mais consciência, porque é a nossa profissão (risos).
Mas Carpinejar, você assume coisas para as quais escritores mais antigos devem torcer o nariz, como assumir que merece ganhar dinheiro pelo que faz.
Carpinejar - Sabe do que o pessoal tem medo? Da crítica. Porque se assumir como escritor é assumir gente criticando a tua obra, gente não gostando, questionando tua obra. É muito fácil dizer que foi a inspiração que fez isso porque aí quem tem que ser criticado é Deus, não é a gente.
Freire - Mas é uma geração que assume isso muito mais abertamente. Se você pegar a troca de correspondências do Drummond com o Mário de Andrade, você vai ver um dizendo pro outro 'fala do meu livro na imprensa', 'me apresenta pra editora tal'. A ''aura'' do escritor não permitia imaginar que ele pudesse fazer todas essas articulações. Que são articulações legítimas pra qualquer profissão. Não conheço astronautas, mas um astronauta deve ser articulado com outro. O que eu quero dizer é o seguinte: eles estão se profissionalizando agora? Não. A Academia Brasileira de Letras já se profissionalizou há muito tempo e ganha muito dinheiro com isso. Muita gente ganha muito dinheiro há muito tempo, eles têm salário fixo, então tem pessoas que já se organizaram há muito tempo.
Carpinejar - Inclusive papai. (Ele é filho do poeta Carlos Nejar).
Freire - A nossa articulação é uma articulação que mostra a cara. Fui conversar com o Manoel de Barros, e o pessoal acha que ele, poeta matogrossense maravilhoso, 93 anos, está lá em Campo Grande criando caramujo e vendo bem-te-vi pousar no quintal. Não. Ele disse uma das frases que eu uso pra minha vida: 'Marcelino, minha poesia não gosta de dinheiro. Mas o poeta gosta'.
Marcelino, quando você foi atrás de uma maior articulação, junto com o Ademir Assunção, também foi criticado, não?
Freire - Criticado, perseguido pela revista Veja, que dizia na época 'o que é que esses escritores estão querendo procurar subsídios do governo pra sua criação, se um escritor precisa de um papel de pão e de uma caneta?' Pelo amor de Deus! Entretanto, modificamos o pensamento a partir dessas articulações. Hoje temos bolsas de criação, que têm aparecido com muito mais frequência; a Funarte aumentou a verba substancialmente pra literatura; a Petrobras está apoiando bolsas de criação; o governo do estado de São Paulo, tem um projeto de circulação de escritores. Como não precisa de dinheiro? Às vezes você fala 'eu sou escritor' e a pessoa diz assim: mas você faz o que mais além disso? porque é o doido. É o doido. 'Dá dinheiro isso aí?' Por isso que nos perguntam sempre qual a função do escritor. Porque a função do advogado eu sei qual é. De médico eu sei. Mas essa função de vocês, que merda é o que vocês fazem?
Falta mais articulação entre os escritores?
Freire - Falta.
Carpinejar - Mas tem que ver o seguinte também: tem uma mudança, que é uma sutileza, que antes a literatura funcionava pela oligarquia. Ou seja, fala do meu livro que eu falo do teu. Isso acabou, inclusive pela visibilidade da rede. Tu não precisa dessa troca de favor. E a gente tem que cuidar. A gente reclama tanto da corrupção da política, mas a gente pode ter corrupção no amor, na medida que a gente faz um caixa dois pro amor, pode ter corrupção na amizade, na medida que a gente tenta profissionalizar o amigo, ou tenta fazer com que o amigo te dê prestígio, ou na medida em que a gente confunde amizade com lobby.
Freire - Penso, lobby existo. Que tal?
Carpinejar - Horrível.
Freire - Que nota?
Carpinejar - Nota quatro.
Freire - Você só me dá de quatro, né? (risos)
Carpinejar - Não, eu também já te dei 9. Ah, não vou cair nessa tua piadinha, foi muito pior do que a frase.


