A viola, para ser tocada, não exige apenas aprendizado. O violeiro de verdade carrega o sertão em seu bojo. Essa, talvez, tenha sido a lição principal que o músico Paulo Freire recebeu quando se encontrou no meio do sertão do Urucuia, perseguindo os sons que habitavam escondidos o livro ‘‘Grande Sertão: Veredas’’, obra-prima de Guimarães Rosa.
Paulo Freire vinha do meio jornalístico – na adolescência, escrevia para a ‘‘Revista Bondinho’’, que circulava no Rio de Janeiro –, e chegou a cursar faculdade de jornalismo nos idos de 1976. Com música mexia desde pequeno, estudou na escola do Zimbo Trio. O músico-escritor sempre viveu entre as duas artes. E ambas convergiram em sua carreira. A literatura o levou à música e vice-versa.
Assim fica mais fácil entender como Paulo Freire chegou à forma do livro-disco, agregando texto e música. Ele lançou, recentemente, a obra ‘‘Lambe-Lambe’’ (Editora Casa Amarela), que associa histórias a um CD.
Quando Paulo Freire decidiu largar o curso de jornalismo nos anos 70, resolveu fazer uma lista de livros importantes que pretendia ler para embasar sua formação. Entre as obras estava ‘‘Grande Sertão: Veredas’’. Durante a leitura, Paulo Freire começou a imaginar como seria o som daquela terra, narrada por texto tão musical.
Foi aí que ele conversou com Ariano Suassuna, em pleno Movimento Armorial, e resolveu entrar sertão adentro até chegar ao Urucuia, onde Guimarães Rosa ambientou seu principal livro. A surpresa foi grande, pois o cenário não era muito diferente do narrado. Lá, conheceu Manuelzão, o personagem que inspirou o escritor e lhe ensinou tantas histórias. Também no Urucuia, aprofundou-se na viola e aprendeu a afinação Rio Abaixo, em sol – que traz uma musicalidade diferente da tradicional Cebolão. Freire viveu no Urucuia por dois anos, e vez ou outra ainda aparece por lá para se reciclar.
Enfim, com um forte embasamento musical – ele também estudou violão erudito – e a veia de escritor pulsando, ‘‘Lambe-Lambe’’ tomou forma. O livro agrega uma série de contos ou crônicas das viagens de Freire, não só pelo sertão, mas também pelo exterior. São textos engraçados, trágicos, curiosos – alguns deles publicados na revista ‘‘Caros Amigos’’. A linguagem é coloquial e traz uma fluência que obedece ao ouvido musical do autor.
‘‘Enquanto o texto não tem musicalidade, eu não fico contente. Eu tenho sempre uma história por trás de uma música. Fiz o ‘Lambe-Lambe’ para misturar tudo’’, comenta Paulo Freire, que vive em Campinas.
O conteúdo da obra gannha ainda mais profundidade quando música e texto se confrontam. O conto ‘‘Manuelzão’’ narra o encontro com o vaqueiro amigo de Guimarães Rosa. Freire encontrou um personagem denso e impressionante. O sentimento extravasou para o CD que acompanha o livro: a faixa ‘‘Manuelzão’’, composta em viola solo, ganhou efeitos, com um campo harmônico aberto favorecendo o improviso, sem muitas delimitações, que chega a um intenso trabalho sonoro. Há, na música, reflexos da personalidade narrada no texto, uma complexidade que mostra o amadurecimento atingido pelo instrumentista como compositor.
No CD aparecem também dois contos musicados (ou vice-versa): ‘‘Lagoa Encantada’’, tocada em duas violas – uma delas de cocho –, e ‘‘Receita de Pacto’’, com voz e viola. Há ainda ‘‘Seo Teó’’, onde aparece uma violaúde – misto de viola com alaúde. Encerra o trabalho a bem-humorada ‘‘Apanhou, Geraldo’’ (domínio público), que também encontra correspondente no texto. A faixa ganha destaque com a voz cristalina de Ana Salvagni.
O trabalho musical de Paulo Freire encontra equilíbrio na dosagem certa entre o conhecimento teórico da música erudita e o empírico, adquirido no sertão. As duas formações não se chocam. Freire prefere a fluência intuitiva que, eventualmente, ganha respaldo da teoria para sedimentar o resultado.
‘‘O lambe-lambe não bate apenas um retrato, mas cria em cima da pessoa. Ele reflete a personalidade da pessoa na fotografia, e eu quis fazer isso. São vários retratos’’, completa.
‘‘Lambe-Lambe’’ é um quadro honesto de um Brasil cru e verdadeiro, sem maquiagem ou deslumbre, observado com lentes límpidas. No sertão vivido por Paulo Freire não cabem clichês.
Além de ‘‘Lambe-Lambe’’, Freire é autor de ‘‘O Canto dos Pássaros’’ (Ed. Guanabara, 1988), ‘‘Zé Quinha e Zé Cão, Vai Ouvindo...’’ (Guanabara, 1993), ‘‘Brahms e Debussy’’ (fascículos da Nova Cultural, 1987) e ‘‘Eu Nasci Naquela Serra’’ (Ed. Paulicéia, 1996). ‘‘Lambe-Lambe’’ pode ser adquirido via Internet, por R$ 15,00, no site www.vaiouvindo.com.br. O telefone da Editora Casa Amarela é (11) 3819-0130. Home page de Paulo Freire: www.paulofreire.com.br.

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