LITERATURA À BASE DE SOM
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de novembro de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
A viola, para ser tocada, não exige apenas aprendizado. O violeiro de verdade carrega o sertão em seu bojo. Essa, talvez, tenha sido a lição principal que o músico Paulo Freire recebeu quando se encontrou no meio do sertão do Urucuia, perseguindo os sons que habitavam escondidos o livro Grande Sertão: Veredas, obra-prima de Guimarães Rosa.
Paulo Freire vinha do meio jornalístico na adolescência, escrevia para a Revista Bondinho, que circulava no Rio de Janeiro , e chegou a cursar faculdade de jornalismo nos idos de 1976. Com música mexia desde pequeno, estudou na escola do Zimbo Trio. O músico-escritor sempre viveu entre as duas artes. E ambas convergiram em sua carreira. A literatura o levou à música e vice-versa.
Assim fica mais fácil entender como Paulo Freire chegou à forma do livro-disco, agregando texto e música. Ele lançou, recentemente, a obra Lambe-Lambe (Editora Casa Amarela), que associa histórias a um CD.
Quando Paulo Freire decidiu largar o curso de jornalismo nos anos 70, resolveu fazer uma lista de livros importantes que pretendia ler para embasar sua formação. Entre as obras estava Grande Sertão: Veredas. Durante a leitura, Paulo Freire começou a imaginar como seria o som daquela terra, narrada por texto tão musical.
Foi aí que ele conversou com Ariano Suassuna, em pleno Movimento Armorial, e resolveu entrar sertão adentro até chegar ao Urucuia, onde Guimarães Rosa ambientou seu principal livro. A surpresa foi grande, pois o cenário não era muito diferente do narrado. Lá, conheceu Manuelzão, o personagem que inspirou o escritor e lhe ensinou tantas histórias. Também no Urucuia, aprofundou-se na viola e aprendeu a afinação Rio Abaixo, em sol que traz uma musicalidade diferente da tradicional Cebolão. Freire viveu no Urucuia por dois anos, e vez ou outra ainda aparece por lá para se reciclar.
Enfim, com um forte embasamento musical ele também estudou violão erudito e a veia de escritor pulsando, Lambe-Lambe tomou forma. O livro agrega uma série de contos ou crônicas das viagens de Freire, não só pelo sertão, mas também pelo exterior. São textos engraçados, trágicos, curiosos alguns deles publicados na revista Caros Amigos. A linguagem é coloquial e traz uma fluência que obedece ao ouvido musical do autor.
Enquanto o texto não tem musicalidade, eu não fico contente. Eu tenho sempre uma história por trás de uma música. Fiz o Lambe-Lambe para misturar tudo, comenta Paulo Freire, que vive em Campinas.
O conteúdo da obra gannha ainda mais profundidade quando música e texto se confrontam. O conto Manuelzão narra o encontro com o vaqueiro amigo de Guimarães Rosa. Freire encontrou um personagem denso e impressionante. O sentimento extravasou para o CD que acompanha o livro: a faixa Manuelzão, composta em viola solo, ganhou efeitos, com um campo harmônico aberto favorecendo o improviso, sem muitas delimitações, que chega a um intenso trabalho sonoro. Há, na música, reflexos da personalidade narrada no texto, uma complexidade que mostra o amadurecimento atingido pelo instrumentista como compositor.
No CD aparecem também dois contos musicados (ou vice-versa): Lagoa Encantada, tocada em duas violas uma delas de cocho , e Receita de Pacto, com voz e viola. Há ainda Seo Teó, onde aparece uma violaúde misto de viola com alaúde. Encerra o trabalho a bem-humorada Apanhou, Geraldo (domínio público), que também encontra correspondente no texto. A faixa ganha destaque com a voz cristalina de Ana Salvagni.
O trabalho musical de Paulo Freire encontra equilíbrio na dosagem certa entre o conhecimento teórico da música erudita e o empírico, adquirido no sertão. As duas formações não se chocam. Freire prefere a fluência intuitiva que, eventualmente, ganha respaldo da teoria para sedimentar o resultado.
O lambe-lambe não bate apenas um retrato, mas cria em cima da pessoa. Ele reflete a personalidade da pessoa na fotografia, e eu quis fazer isso. São vários retratos, completa.
Lambe-Lambe é um quadro honesto de um Brasil cru e verdadeiro, sem maquiagem ou deslumbre, observado com lentes límpidas. No sertão vivido por Paulo Freire não cabem clichês.
Além de Lambe-Lambe, Freire é autor de O Canto dos Pássaros (Ed. Guanabara, 1988), Zé Quinha e Zé Cão, Vai Ouvindo... (Guanabara, 1993), Brahms e Debussy (fascículos da Nova Cultural, 1987) e Eu Nasci Naquela Serra (Ed. Paulicéia, 1996). Lambe-Lambe pode ser adquirido via Internet, por R$ 15,00, no site www.vaiouvindo.com.br. O telefone da Editora Casa Amarela é (11) 3819-0130. Home page de Paulo Freire: www.paulofreire.com.br.


