LITERATURA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de junho de 2016
Maurício Meireles<br>Folhapress 
A guerra civil síria estourava lá fora quando um ferreiro, na cidade de Manbij, resolveu abrir uma janela para o mundo. Em sua página no Facebook, passou a escrever coisas como esta: "O ditador/ não ouve jazz".
Manbij hoje está dominada pelo Estado Islâmico. E o ferreiro, Abud Said, não mais anônimo, hoje é poeta. Seus posts na rede social viraram o livro "O Cara Mais Esperto do Facebook", que ele lança na Flip deste ano.
Said participa, no dia 3 de julho, da mesa "Síria mon amour", ao lado da repórter especial da Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello.
"Comecei a escrever sem muitos planos, contando minha vida diária no Facebook, sem qualquer ideia de botar tudo aquilo em um livro."
"A revolução aparece como pano de fundo da minha vida, mas não era meu desejo escrever sobre ela e sim sobre o meu cotidiano."
A guerra civil aparece em textos como "À maneira do regime sírio: todos que não me amam cometerão suicídio" ou "À maneira da mídia síria: todos que não me amam aparecerão em um vídeo com Ariel Sharon".
Em seus posts, o poeta ironiza a vaidade e o exibicionismo das pessoas no Facebook - daí o título do livro. Em seu perfil, Said conta sonhar com "uma tempestade" de notificações" em sua página.
"Nenhum [editor] me descobriu. Eu fiquei famoso nos círculos artísticos árabes", diz o autor. Foi a editora independente alemã mikrotext que projetou Said, ao lançar seus posts em um e-book. Perto do lançamento da edição, na Feira do Livro de Leipzig, os editores perderam o contato com o poeta.
O rapaz cruzou ilegalmente a fronteira com a Turquia, conseguiu chegar a Alemanha, onde conseguiu asilo e vive até hoje. Said não trabalha mais como ferreiro e está estudando alemão para poder arrumar um emprego. Enquanto isso, vive como colunista da revista "Vice" no país.


