O que você acha do movimento de liberação feminista? ''Gosto do prazer'', responde languidamente Valentina, nua, deitada sobre uma cama com lençóis amarfanhados. Estamos na página 2 da ''Intervista con Valentina'', publicada na revista ''Linus'', em 1972. Valentina é uma personagem de quadrinhos, criada pelo milanês Guido Crepax em julho de 1965. Ela tem sobrenome (Roselli), profissão (é fotógrafa), lábios carnudos, cabelo eternamente chanel, e vive seminua, com meias e ligas, baby-dolls, lingeries sexy. Valentina teria nascido em 25 de dezembro de 1942 e envelhece com o passar das histórias - depois dos 40 anos, por exemplo, passa a usar óculos de grau.
''Eu nunca sei se as minhas aventuras são totalmente reais. Por outro lado, acontece realmente alguma coisa nas minhas histórias?'', disse Valentina. Acontece, minha cara, e não só nas suas histórias: na cabeça de muito marmanjo também. No dia 23 de novembro de 1971, por exemplo, um garoto de 10 anos recebeu das mãos do pai uma revista ''Grilo'', a de número 7. Na capa, a manchete: ''Valentina chegou''. No pé, a advertência: Recomendável para adultos.
O garoto cresceu, virou professor universitário em Ribeirão Preto, doutor em Comunicação pela USP, mas nunca abandonou a obsessão por aquela mulher sedutora, de olhar lânguido, submisso, que vive entre o sonho e o sexo, entre o delírio e o mistério. Marco Antonio Luchetti, filho do mestre do terror R.F. Luchetti, passou a acumular informação e a juntar um espantoso acervo sobre sua heroína.
O resultado chega neste fim de semana às livrarias. Trata-se de ''Desnudando Valentina - Realidade e Fantasia no Universo de Guido Crepax'', um verdadeiro tratado sobre essa HQ ultra-erudita que revolucionou conceitos de diagramação, que espalhou referências literárias, gráficas, psicanalíticas e sexuais.
A Itália debruçou-se durante décadas sobre o mito Valentina - e não só no sentido literal. ''Mito da sensibilidade e da imaginação que pode misteriosamente marcar o sinal de uma época'', assinalou a revista ''Panorama''. Nem tudo era unanimidade. O jornalista Ruggero Guarini vaticinou: ''A Valentina de Crepax não tem espessura nem abismos para ser verdadeiramente erótica.'' Já o intelectual Guido Almansi foi sarcástico: ''Talvez eu seja mutante, mas, muito diferentemente dos milhões de admiradores de Crepax e de adoradores de Valentina, acho a sua história tão excitante quando um boletim meteorológico. O erotismo de Crepax é um erotismo de farmacêutico pesado numa balança.''
Mas os intelectuais passaram, e Valentina não. Eles não conseguiram ler, por baixo das cenas de sadomasoquismo e devassidão, o sofisticado jeito de Crepax de retratar as profundezas do inconsciente humano, relacionando isso com seu fantástico conhecimento de literatura, arte, arquitetura (sua formação acadêmica; ele era também publicitário).
Pedra fundamental - O ensaísmo sobre as histórias em quadrinhos vive uma fase áurea no Brasil. Em junho, saiu ''Tentações à Italiana'', livro do jornalista e advogado baiano Gonçalo Junior. Ele faz ali um esforço analítico sobre as obras dos artistas italianos Guido Crepax, Milo Manara e Paolo Eleuteri Serpieri. Sobre Crepax, ele diz que é simplesmente a pedra fundamental de toda uma geração de desenhistas.
''Ao me debruçar sobre (Milo) Manara e (Paolo) Serpieri, fiquei impressionado no quanto tudo que Crepax estabeleceu em sua mais famosa personagem está presente na obra deles'', disse Gonçalo. ''Mesmo com um espaço de quase 20 anos entre o surgimento de ''Valentina'', ''O Clic'' e ''Druuna'', a abordagem freudiana explorada por Crepax é muito forte nos dois autores. Exemplos: as fantasias sexuais e a presença do sonho como espaço para tratar do sexo - principalmente em ''Druuna''. Eu diria, em síntese, que eles, Manara e Serpieri, seguiram adiante numa estrada rica e de múltiplas opções que Crepax criou, mas sem sair da via principal. ''Barbarella'' começou tudo. Mas Crepax redimensionou as idéias fantasiosas e interplanetárias de Forest (autor de ''Barbarella''), trouxe-as para próximo do leitor e mergulhou fundo em todos os movimentos libertários da década de 1970. Mas não parou aí. Seguiu em frente e adequou sua obra aos novos tempos.''
O livro de Luchetti é saboroso, porque não está refém de nenhuma convenção. Mostra tudo sobre a heroína, às vezes de forma repetitiva, às vezes trazendo uma surpresa louca. Busca suas fontes seja em teses acadêmicas seja em papo de corredor. Como o que travou com o professor Araújo, que tinha acidentalmente encontrado o desenhista em Lucca, na Itália, em um congresso. Araújo e Crepax travaram amizade, o desenhista o convidou para, quando em Milão, ir visitá-lo. O professor não titubeou. Terminado o congresso, pegou o trem e foi.
Ao chegar, sentado na sala, conversava com Crepax quando entrou a mulher do desenhista para servir um café. ''Fiquei surpreso ao ver que ela era Valentina em carne e osso e exclamei: 'Mas... é Valentina!'' Imediatamente, Crepax replicou: ''Sim... Que posso fazer? Ela está em toda parte.''

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