A memória como aliada e a própria história familiar foram os estímulos para a historiadora Amelia Tozzetti Nogueira, 71 anos, escrever um livro que homenageia os imigrantes italianos e os londrinenses. ''De Norte a Norte - uma trajetória de 'contadini''' conta a trajetória de uma família de imigrantes originária do norte da Itália, da região do Vênento. O norte da Itália, o norte de São Paulo e o norte do Paraná confluem geograficamente nesse relato que permeia o desejo e a coragem de lutar por melhores condições de vida.
Serem 'contadini', que significa camponeses, era o destino quase certo de todos os italianos que aqui desembarcavam. Acostumados a trabalhar na lavoura, executavam o que os escravos faziam aqui antes da abolição. Nas grandes fazendas de café eram os colonos que no Brasil encontravam condições de sobrevivência mais favoráveis que as da Itália pós-unificada. No livro, Amelia conta que cerca de 1,2 milhão de imigrantes chegaram por aqui entre 1876 e 1920, sendo que desse total 29% eram de italianos.
De um tempo em que a televisão não ocupava o lugar de destaque nas casas, o rádio pegava mal e as pessoas tinham mais tempo para conversar Amelia traz um vasto repertório de histórias repassados por seus nonnos e nonnas e outros familiares. ''Desde o início do livro tive a preocupação de me fundamentar historicamente para contar os fatos que vivenciei e cresci aprendendo'', ressaltou a escritora.
O livro, além de citações em italiano, mostra alguns dialetos falados no Vêneto. Fora da formalidade da língua oficial, cada aldeia contribuía da sua maneira para dar vida à sua comunicação, gerando os mais variados dialetos.
E o dia-a-dia nas fazendas não era nada fácil. Mas, 'piano piano se va lontano' como diz um ditado tradicional italiano que significa ''devagar se vai longe'' , e após o primeiro impacto, as famílias acabavam se adaptando ao Brasil e até conseguindo prosperar.
Com a família de Amelia não foi diferente. Após desembarcarem em Santos, em 1903, se fixaram em São Paulo para trabalhar em lavouras de café. Em 1936, animados com a notícia de que o Paraná era um estado promissor, divulgada amplamente pela Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), decidiram reunir as economias e abrir uma oficina para fabricar carroças, charretes, rodas d' água e engenhos de madeira (moendas). A Oficina Paulista foi aberta em março de 1937, na Rua Cambé (hoje Duque de Caxias), onde ficou até 1940. A partir daí, passou a ser instalada na Rua Goiás, em atividade até a década de 60.
No local, era comum a presença do então prefeito Hugo Cabral que sempre passava para tomar um café. Amelia lembra que ele mantinha um programa mensal onde publicamente divulgava a prestação de contas da Prefeitura. Mantinha sempre a linha dura, ''de ética acima de qualquer suspeita'', lembra a escritora. ''Acho interessante para os jovens, as pessoas em geral, deixar um pouco de lado a história oficial, que sempre enaltece as mesmas pessoas, e conhecer a visão das pessoas comuns, os trabalhadores'', disse.
O livro, feito através do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), foi oficialmente lançado em 27 de novembro de 2004. Dos 800 exemplares editados, 300 foram doados para escolas municipais, bibliotecas e órgãos de divulgação.

Serviço
- O livro ''De Norte a Norte - uma trajetória de 'contandini''' pode ser adquirido nas livrarias de Londrina ao preço de R$ 20,00.

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