Depois de ter pesquisado no mestrado a trajetória da ascensão social da mulher negra através da educação formal, foi a vez da socióloga Maria Nilza da Silva investigar a questão da segregação urbana e racial em São Paulo. A nova pesquisa, que fez parte da sua tese de doutorado pela PUC/São Paulo, acabou resultando no livro ''Nem Para Todos é a Cidade: Segregação Urbana e Racial em São Paulo'', que será lançado hoje, às 20h30, no Museu de Arte de Londrina. O lançamento faz parte da programação da XXI Mostra Afro-Brasileira Palmares, que se encerra no próximo dia 30. No mesmo dia também será feito o lançamento oficial de um cartão telefônico da Sercomtel com ilustração do artista plástico londrinense Edvaldo Jacinto. Foram confeccionados 10 mil cartões de 40 créditos que trazem o desenho feito em nanquim e ecolini já exposto na 15 Mostra Zumbi dos Palmares.
Baiana, filha de pais migrantes - tinha apenas dois meses quando os pais se mudaram para São Paulo -, Maria Nilza conheceu desde cedo a periferia de São Paulo. Há oito anos lecionando na Universidade Estadual de Londrina (UEL), não se intimida em contar que foi em abril deste ano que terminou de pagar o financiamento da sua graduação na PUC de São Paulo, onde se formou há uma década.
Por meio de entrevistas em estudo qualitativo, com moradores negros de bairros de urbanização consolidada e da periferia, a pesquisa mostrou que as relações de sociabilidade ficam comprometidas e dependem das características dos territórios ocupados. As pessoas que habitam as periferias, negros em maior proporção, sofrem por medo da violência e pela falta de infra-estrutura, principalmente; a minoria negra que vive nas regiões centrais sente dificuldade nas relações sociais pelas manifestações de racismo. ''Mesmo em caso de ascensão social o negro não se sente bem quando mora nos bairros mais nobres. É como se ele não pudesse pertencer àquele ambiente. A presença de uma pessoa negra no local só seria enquadrada como 'normal' se fosse para serviços domésticos'', comentou a pesquisadora.
O trabalho de Maria Nilza também se apóia na pesquisa feita pela arquiteta Raquel Rolnik que ressalta o quanto as políticas públicas de planejamento
urbano não são inocentes e acabam favorecendo a uma segregação racial. No caso de São Paulo, desde o início da década de 20, ações higienistas nos cortiços das regiões centrais da cidade já manifestavam o objetivo de ''embranquecimento'' da sociedade que almejava o desenvolvimento.
''A idéia era que o centro de São Paulo ficasse parecido com Paris. Os bairros Campos Elíseos, Higienópolis e Jardins foram feitos para abrigar a elite dominante da época'', destacou.
Contrapondo a idéia da cordialidade racial apontada por Gilberto Freyre em ''Casa Grande & Senzala'', na década de 30, o livro de Maria Nilza também traz apontamentos sobre ''Os Estudos da Unesco'', que vinte anos depois comprovavam formas veladas de racismo no Brasil.

Serviço:
- Lançamento do livro ''Nem Para Todos é a Cidade: Segregação Urbana e Racial em São Paulo'', da socióloga Maria Nilza da Silva, e do cartão telefônico da Sercomtel com ilustração alusiva à XXI Mostra Afro-Brasileira Palmares. Hoje, às 20h30, no Museu de Arte de Londrina (R. Sergipe, 640). A programação inclui apresentações da ONG Anac, com o grupo de capoeira Geração Brasil (mestre Cidinho, instrutor Carlos Keké e alunos da região de Londrina) e de hip hop, com o grupo ''Fábrica do Medo'' e o MC Fatal, de Cambé). A entrada franca.

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