LITERATURA - Uma boa travessura literária
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de maio de 2003
Luiz Taques<br>Especial para a Folha2 
Esse Manoel de Barros é de uma peraltice danada! Quando a gente pensa que já sabe tudo sobre ele, o poeta vem nos revelar que tem um enorme ermo dentro do olho e que, por causa dele, não foi um moleque travesso.
Ao ler Memórias Inventadas - A Infância, seu primeiro livro de contos, que acaba de sair pela editora Planeta, é possível, porém, descobrir o contrário. Barros foi, sim, um moleque travesso. E, para começo de conversa, ele continua, aos 86 anos de idade, fazendo, aqui e lá fora, suas travessuras literárias.
No ano passado, por exemplo, uma de suas travessuras foi parar no CEDMA (Centro de Ediciones de la Diputación de Málaga) que lançou, na Espanha, a antologia bilíngüe Todo Lo Que No Invento Es Falso . Neste ano, a editora Jangada, da França, publicou, também em edição bilingüe, uma outra travessura sua o livro La Parole Sans Limites, com ilustrações de Cícero Dias.
Até o fim deste ano, será a vez de Portugal conhecer a travessura completa do poeta.
No início do mês, em Campo Grande (MS), aconteceu a estréia nacional de Desculpe a delicadeza, peça baseada em algumas de suas travessuras. Memórias Inventadas (cujas ilustrações são da artista plástica Martha Barros, filha do poeta) contém 16 contos.
No primeiro conto, Escova, Manoel de Barros comete a travessura de escovar palavras. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, trancado a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondi a eles, meio entresonhado, que eu estava escovando palavras. Eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora.
No Parrede!, Barros conta que estudava em colégio interno e, como todo
moleque, também fazia lá suas travessuras, as quais, nesse conto, ele dá o nome de pecado solitário. Um padre o pegou em flagra.
Corumbá, no parrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima de Vieira.
Decorrar 50 linhas, o padre repetiu.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Ficar na parede era uma glória.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio das paredes.
No conto O Lavador de Pedra, Manoel de Barros fala que morava no patrimônio de Pedra Lisa, um arruado de 13 casas e o rio por trás.Meu avô botou uma venda no arruado. Vendia toucinho, freios, arroz, rapadura e tais. Os mantimentos que os boiadeiros compravam de passagem. Atrás da venda estava o rio. E uma pedra que aflorava no meio do rio. Meu avô, de tardezinha, ia lavar a pedra onde as garças pousavam e cacaravam. Na pedra não crescia nem musgo. Porque o cuspe das garças tem um ácido que mata no nascedouro qualquer espécie de planta.
Nascido em Cuiabá (MT), mas criado no Pantanal de Corumbá (MS), Manoel de Barros conta em Memórias Inventadas que o poeta nasceu nele aos 13 anos de idade. Escreveu uma carta aos pais, que moravam na fazenda, dizendo que queria ser fraseador. Meu pai ficou meio vago depois de ler a carta. Minha mãe inclinou a cabeça. Então, o meu irmão mais velho perguntou: Mas esse tal de fraseador bota mantimento em casa? Meu irmão insistiu: Mas se fraseador não bota mantimento em casa, nós temos de botar uma enxada na mão desse menino pra ele deixar de variar. A mãe baixou a cabeça um pouco mais. O pai continuou meio vago. Mas não botou enxada.
Cabeludinho é o conto em que Barros fala da travessura de passar as férias na casa da avó ele que, nessa ocasião, estudava no Rio de Janeiro. Este é meu neto. Voltou de ateu. Ela disse que eu voltei de ateu. Aquela preposição deslocada me fantasiava de ateu. Aprendi nessas férias a brincar de palavras mais do que trabalhar com elas. Aprendi a gostar mais de palavras pelo que elas entoam do que pelo que elas informam. Por depois ouvi um vaqueiro a cantar com saudade: Ai morena, não me escreve, que eu não sei a ler. Aquele a preposto ao verbo ler, ao meu ouvir, ampliava a solidão do vaqueiro.
O livro Memórias Inventadas foi editado como se fosse um caderno e vem dentro de uma caixa, amarrado por uma fita. Com o seu lançamento, a editora Planeta uma das dez maiores do mundo, com faturamento anual de quase um bilhão de dólares prega uma travessura em Manoel de Barros. O poeta é, com Memórias Inventadas, o marco zero da editora espanhola no Brasil.
O que se espera, agora, é que Barros continue aprontando, na prosa, as suas peraltices. Porque, na poesia, ele já é desde sempre um craque.
Sua obra não é risco nágua!


