Trezentas e trinta seis páginas da autobiografia ''Um Homem. Um Rabino'' (Ediouro Publicações) para Henry Isaac Sobel responder quem é o sujeito por trás da foto com olhar de pânico, sem óculos, assustado na frente da câmera da polícia dos Estados Unidos (EUA), depois de ser flagrado roubando três gravatas em Palm Beach. O lançamento será hoje, na Livraria Cultura, em São Paulo. Na próxima segunda-feira, Sobel dá autógrafos no Instituto Fernando Henrique Cardoso, na capital paulista. O ex-presidente deve participar de um debate durante o evento.
''Quem sou eu? O rabino que ficou conhecido no Brasil pelo sotaque norte-americano forte, a kipá vinho e a dedicação à defesa dos direitos humanos? Um religioso que se dedicou a aproximar a comunidade judaica dos brasileiros de todos os credos? Ou o malandro que rouba gravatas?''. As indagações são do próprio rabino que acabou se desligando da presidência da Congregação Insraelense Paulista (CIP), após o incidente que, na sua opinião, não foi o maior abalo de sua trajetória e algo de que tivesse que se arrepender.
Para ele, sem dúvida alguma, o seu grande erro foi a entrevista à revista ''Playboy'', em 2003, que, como reconhece na autobiografia, apesar da publicação reservar esse espaço para personalidades de destaque, todos sabem que o filé mignon está em outras páginas.
Vaidade é uma palavra recorrente no livro - uma das muitas tentações de um rabino ou qualquer outro líder religioso e político. A autobiografia é um Yom Kipur, o Dia do Perdão dos judeus. Ao contrário de fazer uma reflexão somente sobre os erros cometidos durante um ano, como manda a tradição judaica, promove também o balanço dos acertos de toda a vida.
Para os que torcem o nariz às autobiografias, que podem ser flageladas pela autocensura, o livro é muito mais do que adiantam as considerações positivas do prefácio de Fernando Henrique Cardoso. ''Um Homem. Um Rabino'' não é somente um mea-culpa, oferecendo além da leitura agradável, a oportunidade para o leitor, que não está familiarizado, conhecer um pouco sobre a cultura judaica.
Sobel nasceu em Lisboa, Portugal, em 1944. Com poucos meses, a família emigrou para os EUA. Política, sexo e religião sempre formaram um triângulo amoroso na vida de Sobel. ''Experimentei maconha, claro, como quase todos os universitários do período (...). A primeira relação sexual me abriu as portas para o mundo novo (...). Ainda assim sobrou daquela época certa atração permanente pelo flerte, pela sedução'', comenta o rabino.
A biografia de Sobel não passou sem enfrentar os anos da ditadura no Brasil ao arriscar-se em mandar enterrar Vladimir Herzog como um assassinado e não como um suicida. A autobiografia, além de tocar no caso da gravata, ainda traz apêndices com a história dos judeus no Brasil e artigos do rabino para a imprensa e algumas prédicas.
Algumas fotos do livro em diversos momentos da trajetória de Sobel, inclusive a que aparece sob o título da matéria ''Errei, mas não sou ladrão'', revelam o rabino com ou sem gravata. A fotografia da tragédia pessoal de Sobel e a versão dele para o caso fazem parte das sequelas que o rabino resume na alusão de uma música de Chico Buarque, dizendo que não era para ser capa, mas mera contracapa, a face obscura.

SERVIÇO
- ''Um Homem. Um Rabino''
Autor - Henry Sobel
Editora - Ediouro Publicações
Páginas - 336
Quanto - R$ 39,90

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