Nascido no ano da descoberta do gás néon, 1906, o poeta Mario Quintana gostava de dizer que foi um menino por trás de uma vidraça, tamanha sua adoração pelos livros infantis, cujas ilustrações coloridas contrastavam com a rotina de sua cidade, a gaúcha Alegrete, tão tediosa que parecia produzir imagens em preto-e-branco. Pouco disposto a entrevistas, Quintana, que morreu em 1994, espalhou histórias de sua vida ao longo dos textos, que tanto retratavam seu mundo interior como investigavam sua própria história.
Autor de uma obra heterogênea, mas marcada por uma precisa unidade, Quintana tornou-se quase um desconhecido para as novas gerações de leitores, uma vez que seus livros acabaram esgotados. Para preencher a lacuna, a editora Globo programou a reedição de toda a obra do poeta, iniciando as comemorações do centenário de seu nascimento que ocorre no próximo ano. E na largada, foram lançados os três primeiros volumes: ''A Rua dos Cataventos'', ''Canções'' e ''Sapato Florido''.
''São justamente os três primeiros livros de Quintana, que mostram um dado revelador de sua consciência poética'', observa a pesquisadora Tania Franco Carvalhal, responsável pela organização do relançamento. ''Afinal, é bem possível que ele tenha escrito os primeiros poemas muito antes da publicação, pois, como são sonetos, ou seja, uma forma fixa bastante explorada, eles ficariam deslocados no conjunto da obra se surgissem depois dos versos mais livres, libertos da métrica e da rima, que caracterizam sua produção posterior.''
Ou seja, se não iniciasse a carreira com aqueles sonetos, provavelmente Mario Quintana não teria como publicá-los futuramente. ''Mas, mesmo seguindo a forma rígida da métrica, o poeta revela alguns pontos que vão marcar sua obra'', comenta Tânia, apontando como exemplo as lembranças da infância. Em ''A Rua dos Cataventos'', ele se recorda das ruas de sua cidade natal, os amigos já mortos e até do vento, cuja presença está sempre ligada ao caminhar, assim como as nuvens: ''Pra que partir? Sempre se chega, enfim...''
De fato, se sua visão da realidade é muito marcada pela nostalgia, Quintana já demonstra em sua poesia qualidades básicas do modernismo, que são o humor, a brevidade e o coloquialismo. Em textos futuros, ele vai atingir um grau de precisão comparável aos mestres do verso brasileiro, como no famoso ''Poeminha do Contra'', pertencente ao livro ''Caderno H'': ''Todos esses que aí estão /Atravancando o meu caminho, /Eles passarão... / Eu passarinho!''
Mesmo quando trata de assuntos sérios, como a morte, Quintana descobre uma forma de encerrar a poesia com uma fina ironia, o que não apenas permite uma rápida identificação com o leitor como permite que o tema seja tratado de uma forma nada acadêmica.
A pesquisadora aponta outra importância da republicação dos primeiros textos de Quintana: até há pouco tempo, os primeiros livros do poeta figuravam juntos em um único volume, ''Poesias''. ''Foi uma junção feita em 1962 e que passou a predominar, criando a falsa idéia que Quintana começara a publicar naquele ano e não em 1940, data de 'A Rua dos Cataventos'.''
Depois da estréia editorial, o poeta viveu uma fase de grande estímulo em que sempre procurou manter, em cada livro, uma unidade de composição. Daí o lançamento de ''Canções'', em 1946, e, no ano seguinte, de ''Sapato Florido'', uma coletânea de epigramas, isto é, de curtos poemas em prosa anteriormente publicados na revista ''Província de São Pedro'', da famosa Livraria do Globo.
''Foi o próprio poeta que se preocupou em desarmar o leitor que poderia ficar desnorteado com a originalidade de sua nova produção poética nesse livro'', comenta Armindo Trevisan, no prólogo de ''Sapato Florido''. ''Tratava-se disso: de uma nova poesia, a da prosa sem verso e sem rima, diversa da prosa-poesia.''
Em 1948, lança ''Espelho Mágico'', com alguns quartetos que agradaram a Monteiro Lobato. E a série se encerra com ''Aprendiz de Feiticeiro'', de 1950, seu primeiro volume em que não se prende a um gênero poético em especial, o que fazia até então e que passaria a marcar seu trabalho.
Ao mesmo tempo, torna-se um poeta popular ao publicar textos em uma página literária do jornal ''Correio do Povo'', especialmente por não ser um homem dominado pela fama: ''Quem busca unicamente a glória, não a merece'', disse ele, certa vez, em sua coluna.

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