Curitiba- As experiências pessoais e as lembranças do passado fazem parte sempre das experiências teatrais, dos romances e da poesia de Ariano Suassuna. ''Escrever para mim é viver. Escrevendo eu não abandono o passado, nem o presente. E faço projeções para o futuro. Não acho que recordar é viver. Mas o passado, para mim, é importante'', diz. A personalidade do autor está sempre presente nas suas obras. Mas de forma discreta. Tímido, ele conta que se identifica com o personagem Chicó, de ''O Auto da Compadecida'', pela ingenuidade fora do comum. Já João Grilo, esperto, é um retrato do que gostaria de ser, revela.
Nos seus escritos, a política sempre aparece como pano de fundo. ''Se olharmos para o 'Auto da Compadecida' ficam evidenciados o clero corrupto, a burguesia urbana e os pobres. Todo mundo vê de que lado estou'', comenta. Socialista, Ariano Suassuna não acredita que a educação possa ser a salvadora da atual sociedade brasileira. Para ele, a mudança social só é possível com distribuição de renda. E exemplifica. Quando menino, prestava atenção em três meninos da zona rural que jamais conseguiam estudar. Não aprendiam nada. Só descobriu o porquê anos depois: eles tinham dores de cabeça fortes por falta de alimentação.
''Por trás do problema de acesso à cultura, à alfabetização, existe um problema mais grave: o abismo que existe entre o Brasil da classe privilegiada e o Brasil da miséria. Somos formados e deformados pelo Brasil privilegiado. E esquecemos de ver a realidade de 40 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha de pobreza. A gente tem que acabar com o abismo, a injustiça, a diferença enorme entre os maiores salários e os menores. Entre os assalariados e os desempregados'', revela. Suassuna esteve ontem em Curitiba onde deu uma palestra sobre a Cultura Oral Brasileira, na III Semana de Letras da Unibrasil. Satisfeito, ele comemora o fato de estar indo para a televisão através de uma minissérie baseada na obra ''Pedra do Reino'', que também virará filme.
A série, que deverá estrear na Globo em junho, foi adaptada por Luiz Fernando Carvalho. O livro, publicado em 1971, sofreu várias adaptações (já está na sexta edição). Mas para virar minissérie, teve novas intervenções do autor. ''Minha relação com a minha obra é de amor. Quando não estou satisfeito, eu volto e a reescrevo. A 'Pedra do Reino' deveria ser uma trilogia. Eu iria fazer uma série. Acabei desistindo. Mas ele ficou com várias histórias que não foram concluídas. Até porque, eu escreveria as sequências. Terminei três destas histórias e entreguei para o Luiz Fernando Carvalho para que ele pudesse saber o destino daqueles personagens'', conta.
A história de Suassuna é uma autobiografia do personagem Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. O livro conta a saga de uma família que se autoproclama verdadeira descendente dos reis brasileiros. A narrativa é inspirada ao mesmo tempo em romances de cavalaria, literatura de cordel e outros elementos da cultura popular brasileira. ''Não é a primeira vez que fui procurado para fazer televisão. A primeira ocorreu em 1960. É claro que gostaria que minha obra fosse para tevê porque o público é infinitamente maior. Mas algumas coisas eu não admitiria. Então eu disse que apenas faria se eles mudassem o passo. Eu não admitiria que houvesse caricatura do sotaque nordestino em minha obra, nem admitira músicas com guitarra. Não aceitaram. Não me abalei e esperei por mais de 30 anos. E poderia esperar até o fim de minha vida, se fosse preciso'', diz com orgulho.
Suassuna está se dedicando agora a uma nova obra. Ele não pensou no título. Mas quer fazer um trabalho completo, que reúna Ariano poeta, dramaturgo e romancista. ''Quero fundir o romance, o teatro e o poema. A poesia minha é pouco conhecida, mas é a fonte profunda de tudo o que escrevo'', revela. O escritor ainda não sabe quando ficará pronta a obra, mas promete se dedicar. ''Eu faço tudo ao mesmo tempo. E tenho que parar um pouco. Quem sabe agora, com meus 80 anos, eu me aquiete e volte a escrever mais''. Ele completa oito décadas de vida no próximo dia 16.

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