LITERATURA - Um grande especialista em anatomia e alma humana
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de março de 2006
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
Um médico escritor ou um autor médico Moacyr Scliar nunca se importou em definir suas atividades, pois está ciente de construir uma carreira única, cujo principal interesse são histórias humanas. Especializado em saúde pública, o Scliar médico mantém íntimo contato com diversos tipos de pacientes, o que inspira o Scliar escritor a manter, há oito anos, uma coluna com crônicas no jornal ''Zero Hora'', de Porto Alegre. São textos que tratam de assuntos diversos, como alimentação, exercícios físicos, medicina tradicional ou alternativa, sexo, dor, memória, velhice e morte. Histórias nem sempre alegres, mas tratadas com delicadeza como comprova o livro ''O Olhar Médico'' (Editora Ágora, 184 páginas, R$ 33), que traz uma seleção com 55 daquelas crônicas.
''Tenho experiência como médico para conversar com a população'', conta o escritor, um dos participantes da 19 Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que termina hoje, onde demonstrou, com humor e sabedoria, seus conhecimentos da anatomia e da alma humana.
Um dos assuntos que mais inspiraram suas crônicas (e que ainda lhe é alimento básico) são os mitos em torno de doenças. Scliar conta que o imaginário popular é recheado de crendices que, muitas vezes, especialmente quando é levado a sério pelo paciente, pode até agravar a doença. ''Há dois tipos de mitos, que dependem da classe social'', observa. ''Nas mais populares, há histórias como aquela, muito comum no Rio Grande do Sul, de que se o sujeito urinar contra o vento, contrai gonorréia. Já nas classes mais abastadas, o interesse maior é por medicina alternativa.''
Scliar conta que, por meio da relação com diversos pacientes, consegue estabelecer uma certa intimidade, o que permite descobrir histórias curiosas. Claro que todas as identidades são preservadas, interessando apenas os problemas.
É nesse ponto que o cruzamento do trabalho do médico se aproxima do ofício do escritor. Para Scliar, a literatura trata da condição humana e suas ansiedades. E, quando doente, o homem sente-se mais próximo das experiências com a morte que, provavelmente, é a maior das angústias humanas. ''O medo de morrer e o sofrimento causado pela doença nos fazem mais frágeis e nos tiram as máscaras que usamos no dia-a-dia'', afirma. As crônicas, escritas entre 2002 e no ano passado, estão agrupadas no livro por meio de temas.


