Um livro escrito sem muitas vírgulas, como é o próprio escritor londrinense Márcio Américo. Ele não enrola muito para dizer o que pensa num estilo de texto que não conta com as entrelinhas, falando tudo na cara do leitor, a exemplo do romance policial ''Corações de Aluguel'', que a editora Amauta deve lançar em novembro, na edição 2007 do Londrix - Festival Literário de Londrina.
O autor de ''Meninos de Kichute'', lançado em 2000 com apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), também assina o roteiro do filme inspirado no livro, juntamente com o diretor Lucas Amberg, que rodou em Londrina ''Heróis da Liberdade''.
Aprovado pelo Programa Petrobras Cultural Divisão de Filmes de Longa-Metragem, que deve repassar R$ 600 mil para o projeto do filme, que narra a história de garotos do bairro Vila Nova, o longa está orçado em R$ 2,5 milhões, podendo iniciar as filmagens no ano que vem.
O projeto foi aprovado pela Petrobras ao concorrer com 1800 propostas, sendo selecionado entre os 20 que serão beneficiados pelo programa. ''Isso é uma chancela importante para despertar o interesse de outros investidores'', argumenta Américo.
''Corações de Aluguel'' conseguiu alugar um quarto na preferência do editor Wanderley Mendonça, da Amauta, que foi apresentado a cada um dos cômodos, que representa o autor, pelo dramaturgo londrinense Mário Bortolotto. ''O Mário deu um exemplar de 'Meninos de Kichute' para o Wanderley, que gostou bastante, dizendo que foi um dos melhores livros que leu nos últimos 10 anos'', conta Américo, que desde 1995 guardava o romance na gaveta.
Para o escritor, ''Corações de Aluguel'' não é simplesmente uma trama policial, mas o que chama de gênero ''bandidal''.
A periferia de Londrina ainda é o cenário escolhido pelo autor no novo romance - apesar da Vila Nova, onde ''Meninos de Kichute'' é ambientado, não ser periférica, os moradores têm a cara de bairros de qualquer cidade. ''As quebradas de Londrina não representam somente as pessoas que moram na periferia, mas também as que fogem do centro e vivem em bares, que para frequentar é preciso ter colhão'', comenta o autor.
O enredo do livro é sobre um traficante, Beto, que sequestra a filha de um senador denunciado no Congresso Nacional.
Américo revela que o crime sensibiliza a opinião público, o que afasta do político de uma punição, empurrando-o também para o dilema entre pagar o resgate ou deixar que a filha morra nas mãos dos bandidos para se livrar da investigação.
No livro, o escritor diz que menciona alguns jornalistas que fizeram carreira no gênero policial, como Nicéia Lopes, Barbosa Neto e Luís Carlos Alborghetti.
A linguagem coloquial e uma boa história para ser contada são os dois caminhos que o autor seguiu para chegar ao novo romance.
''No mercado editorial brasileiro faltam livros assim, sem muita vírgula. Hoje, o gênero de auto-ajuda influencia os demais e obras com cara de romance na verdade são de auto-ajuda''.
Ainda no forno, ''Anjos 80'' deve ser o próximo lançamento de Américo, que pretende também publicar uma segunda edição de ''Meninos de Kichute''.
''Anjos 80'' corre os anos de uma geração de artistas londrinenses, que na avaliação do autor tinha uma identidade própria.
''Era um pessoal que frequentava lugares como a Adega União, que juntava grana para poder beber alguma coisa, gente como Arrigo Barnabé, Mário Bortolotto, Paulo de Moraes, Bernardo Pellegrini, entre outros'', lembra Américo.
Para escrever o escritor recolhe 50% de sua inspiração em personagens reais e o restante diz que vai flexionando essas informações para criar as histórias - já que a realidade é mais dura e cruel que a ficção.
O momento literário londrinense é avaliado pelo escritor como sendo de produções isoladas e sem links - diferente do que afirma ter acontecido nos anos 80 em que acredita ter existido uma coesão cultural maior.
''Isso acontecia em todas as áreas. Você pegava o jornal e tinha um estilo, ia ao teatro e percebia a mesma coisa. Eram pessoas que bebiam no beatnik e blues e faziam a mesma coisa. Atualmente são produções individuais, sem objetivo, sem influência definida'', avalia.
Recentemente, Américo estreou uma crônica no Folha 2, que considera um espaço importante no jornal. ''Achei ótima a iniciativa. É uma forma de promover as pessoas. Foi assim que apareceram nomes como Paulo de Moraes e Mário Bortolotto'', conclui.

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