LITERATURA - Um cronista premiado
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de agosto de 2003
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
''Não acredito em textos que não comovam. É preciso mexer com o leitor. Com o coração, o estômago, a cabeça... e comover. Tem textos que comovem a razão, o humor, a alma, que provocam a indignação, o riso, a solidariedade. Escrever bem é comover''. É essa a essência da crônica para Paulo Briguet, autor de ''Manhã Inexistente'', premiada recentemente no XII Concurso Clarice Lispector, promovido pelo Satélite Esporte Clube (leia texto nesta página).
No dia 15, Briguet esteve em São Paulo para receber o prêmio de primeiro lugar, em cerimônia na sede do clube ligado aos funcionários do Banco do Brasil e que reúne sócios em todo o País. Aliás, a entidade premiou outra londrinense no evento. Maria Auxiliadora Franzoni levou o terceiro lugar no 10º Concurso Mário Quintana de Poesia por ''Alquimia I''.
Aos 33 anos, o cronista paulistano - radicado em Londrina há 14 - já tem no forno mais um livro em parceria com seu pai, o advogado Paulo Lourenço. ''Mea Culpa e Outras Crônicas'' deve ser apresentado ao público até o final do ano. Ele também vai estrear na poesia. A obra ainda não tem título, mas deve ser lançada em 2003.
Para Paulo Briguet, ''a crônica vive na corda-bamba entre verdade e mentira, fato e imaginação, pessoa e personagem, jornalismo e literatura''. Ao analisar essa linha que separa o jornalista do escritor, Briguet se diz um ''repórter das coisas''. ''Ser cronista é extrair o tempo das coisas. Por mínimas que sejam, todas as coisas têm história e têm tempo. Elas escondem o tempo dentro delas''.
Na sua opinião, uma boa crônica enxerga significados em coisas sem nenhuma importância aparente. ''Todo mundo acha que sou distraído mas, ao contrário, sou atento em excesso''. Briguet não tem hora marcada para escrever seus textos. Faz crônicas durante o dia, mas também pode ser que se ocupe delas à noite. Quem sabe ainda elas invadam a madrugada do autor.
''Tenho um bloquinho de papel e uma caneta na cabeceira da cama. Às vezes acordo no meio da madrugada e tomo nota para não esquecer. Se sonho, anoto porque acho que dá uma crônica. Quando é preciso, escrevo à mão mesmo'', conta. ''Cheguei ao cúmulo de ligar da rua para minha secretária eletrônica e gravar um recado para não escrever uma crônica sobre guarda-chuva''. Briguet comenta que o cronista vive de lampejos, está sempre duelando com o tempo. ''Manhã Inexistente' é isso. Parece que o tempo se engana, entra numa espécie de abismo subjetivo''.
Indagado sobre sua primeira vez como cronista, Briguet relembra: ''Aos nove anos fiz seu primeiro jornal, impresso em estêncil. 'O Polegar' era um jornal de histórias. Aí começava minha carreira de jornalista e cronista''.
Paulo Briguet assume que tudo o que escreve é uma espécie de crônica disfarçada. A lista do supermercado, um bilhete para a namorada, um poema. Às vezes até matérias jornalísticas. Ele já trabalhou na redação da Folha de Londrina e, nessa época, começou a escrever sobre fotos que, não necessariamente, eram notícia. ''Mas tinham o que dizer. Eram cenas de Londrina''.
No período em que fechava a primeira página do jornal, ele se achava meio na contramão das coisas. ''Eu fazia o oposto da crônica. Na primeira página, a gente seleciona assuntos de interesse geral; na crônica, vê significado no supostamente insignificante''.
Autor do livro ''Repórter das Coisas'', da série Cronistas de Londrina, Paulo Briguet ressalta que a cidade tem uma tradição nesse gênero e cita alguns nomes. ''João Arruda, Nelson Capucho, Apolo Theodoro, Lélio César são cronistas que admiro. A leitura dos textos deles me incentivou a escrever''. Quanto aos preferidos em âmbito nacional estão Rubem Braga, Ivan Lessa, Nelson Rodrigues e, segundo ele, o maior, Paulo Mendes Campos.
Briguet faz crônicas sobre os mais variados assuntos. ''Falo de Tolstói a pastel de queijo na feira às cinco horas da manhã'', brinca. Quem quiser conhecer mais textos do cronista pode acompanhar sua produção pelo site www.scalassara.com.br (às quintas-feiras), no seu blog www.tipos.com.br/briguet, ou ainda ouvi-lo no programa ''O Mundo é Pequeno'', que vai ao ar pela Universidade FM aos domingos, às 17h55, segundas-feiras, às 11h55, e quartas-feiras, às 20h55. A crônica de hoje será ''Carta de Amor''. Para os que gostam de trocar figurinhas, ele dá a dica: ''O blog nada mais é que uma crônica de plantão. Por ser interativo, é muito proveitoso. Daí nascem novas crônicas''.
E para falar da função do cronista, Briguet cita seu próprio texto ''E Daí?'' (que pode ser conferido no blog): ''... Uma crônica faz o anúncio de nada; é a própria não-tícia. A tarefa do cronista não é dar alguma informação ou vender algum produto; ele deve apenas encontrar o tempo escondido em cada coisa. A crônica é um inutensílio. O cronista, um inútil. No bom sentido, se é que você me entende''.


