A imagem mais lembrada talvez seja a do provocador da Semana de Arte Moderna de 1922. Também é comum identificá-lo como o autor de ''Macunaíma'', sobretudo devido ao sucesso das adaptações para o cinema e o teatro de sua obra célebre. Mário de Andrade (1893-1945), porém, deixou um legado múltiplo com extensões sobre vários domínios da cultura. Foi uma das personalidades intelectuais brasileiras mais complexas do século 20.
Nesta temporada, tudo (ou quase tudo) o que escreveu volta às prateleiras com o relançamento de suas obras completas pela editora Agir. Os três primeiros títulos já saíram dos fornos: a rapsódia ''Macunaíma'', o romance ''Amar, verbo intransitivo'' e o volume de crônicas ''Os filhos de Candinha''. A empreitada é resultado de um trabalho realizado pela Equipe Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros, da USP, sob a coordenação de Telê Ancona Porto Lopez.
O projeto tem o objetivo de estabelecer edições definitivas das obras. Para isso, os pesquisadores analisaram e compararam edições já publicadas de cada um dos títulos inserindo, em alguns casos, material complementar inédito. A versão de ''Macunaíma'', por exemplo, traz um dossiê contendo dois prefácios acompanhados de notas, além de dois depoimentos do autor.
''Evidentemente não tenho a pretensão de que meu livro sirva para estudos científicos de folclore. Fantasiei quando queria e sobretudo quando carecia pra que a invenção permanecesse arte e não documentação seca de estudo'', assinala Mário em um dos manuscritos. ''Macunaíma'', sua obra máxima, revela um espantoso controle de recursos estilísticos.
Quando lançada, foi recebida com entusiasmo por uns e rejeitada por outros. O autor preferia chamá-la de rapsódia em vez de romance, dada a construção do livro, concebido como uma justaposição de trechos de procedência variada. Tomando como fio condutor a personagem Macunaíma, herói de um ciclo mitológico da Amazônia, o escritor fez uma colagem de diversos fragmentos combinando as lendas dos índios com as anedotas da história brasileira, a vida cotidiana nas cidades do sul com os costumes do nordeste.
A obra já foi definida como uma espécie de busca simbólica do ''caráter nacional'' brasileiro. Apresenta um ''herói sem nenhum caráter'' que transforma-se inúmeras vezes ao sabor das circunstâncias: de criança feia vira princípe encantado, depois imperador do Mato Virgem, em seguida malandro na cidade de São Paulo, e assim por diante, até transformar-se na constelação de Ursa Maior.
Se a geografia e o tempo do romance são totalmente subvertidos, a linguagem da narrativa fascina o leitor pela combinação de vocábulos e torneios sintáticos colhidos das mais variadas ''falas'' do País. ''Amar, Verbo Intransitivo'', por sua vez, marcou a estréia do autor como romancista. Foi publicado em 1927, um ano antes de ''Macunaíma''.
Conta a história de Elsa, uma governanta alemã contratada por um membro da burguesia industrial paulistana para iniciar sexualmente seu filho adolescente. Classificado pelo escritor como ''idílio'', texto leve sobre o amor, o livro trouxe uma narrativa experimental para a época. A intelectualidade tradicionalista torceu o nariz censurando-lhe o desrespeito às regras gramaticais e a ousadia do tema.
''Se conseguir que se escreva brasileiro sem por isso ser caipira, mas sistematizando erros diários de conversação, idiotismos brasileiros e sobretudo psicologia brasileira, já cumpri o meu destino'', anotou Mário em uma carta ao poeta Manuel Bandeira, quando ainda escrevia o livro.
O terceiro título da primeira fornada de relançamentos traz a mão de cronista de Mário de Andrade. ''Os Filhos de Candinha'' reúne 43 textos publicados em jornais e revistas entre 1929 e 1939 e selecionados para o volume pelo próprio autor em 1943. Entre os temas abordados figuram a luta contra os totalitarismos, a reforma ortográfica, a renovação da poesia e os dilemas da modernização do Brasil.
Todos os assuntos são tratados com humor, ironia e com a linguagem próxima da oralidade buscada pelo escritor em seus contos, poemas e romances. ''No meio da minha literatura, sempre tão intencional, a crônica era um 'sueto', a válvula verdadeira por onde eu me desfatigava de mim. Também é certo que jamais lhe dei maior interesse que o momento breve em que, com ela, brincava de escrever'', salienta o autor no texto de apresentação da obra.
O projeto de relançamentos abrange um total de 29 livros, todos com projeto gráfico da designer Ana Luisa Escorel. O interessante é que cada volume vem acompanhado das ''histórias'' das edições. De acordo com o cronograma da edtiora, mais cinco títulos chegarão às prateleiras até o final do ano.

SERVIçO:
-''Macunaíma, o herói sem nenhum caráter''
Autor - Mário de Andrade
Editora - Agir
Páginas - 240
Preço - R$ 34,90
- ''Amar, Verbo Intransitivo''
Autor: Mário de Andrade
Editora - Agir
Páginas - 184
Preço - R$ 34,90
- ''Os Filhos da Candinha''
Autor: Mário de Andrade
Editora - Agir
Páginas - 192
Quanto - R$ 34,90

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