LITERATURA - Thrity Umrigar fala de imigração
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Ubiratan Brasil<br>Agência Estado 
Em A Distância Entre Nós, publicado no Brasil em 2006, a escritora indiana Thrity Umrigar emocionou leitores ao mostrar a difícil e delicada relação entre patroa e empregada mais que isso, entre duas mulheres de diferentes castas da Índia contemporânea. A história alçou o livro à lista dos mais vendidos, somando cerca de 100 mil exemplares comercializados. Agora, a Nova Fronteira, que lança sua obra aqui, aposta em A Doçura do Mundo, romance que já está nas livrarias (304 páginas, R$ 35).
A trama se passa em Cleveland, Ohio, cidade onde hoje Thrity vive. Para lá, é levada Tehmina Sethna, mulher que nasceu e passou toda sua vida em Bombaim. Ela se muda para os Estados Unidos a pedido do único filho, Sorab, que já está integrado ao american way of life. O mesmo não acontece com Tehmina, que sente saudade do marido, já morto, e das cores de sua terra natal. Para completar, seu jeito de se vestir é considerado excêntrico demais ao gosto americano, o que acaba provocando uma rejeição da nora.
Tehmina tem de escolher entre a nova vida e o retorno à cidade de Bombaim, que cada vez mais lhe desperta saudades. É aí que ela, ao ajudar dois meninos que moram na casa ao lado e são maltratados e negligenciados pela mãe, rompe, sem querer, as barreiras entre as duas culturas, tema essencial da literatura praticada por Thrity Umrigar.
Jornalista há 17 anos, ela escreve para o Washington Post, entre outros jornais, inspirando-se levemente nas diferenças culturais que foi obrigada a enfrentar Grace Butler, por exemplo, é um personagem quase caricato ao reunir traços exagerados de diversas pessoas com quem Thrity conviveu.
Crente na existência de algumas semelhanças entre as sociedades brasileira e indiana, Thrity vem ao Brasil em maio para participar do Festival de Literatura de Florianópolis, além de promover seu novo livro lançado no País. Sobre ele, respondeu às seguintes questões por e-mail desde a Índia, onde foi resolver alguns problemas de família.
Como uma imigrante cujos primeiros livros se passam na Índia, como você pode ter certeza de que reproduz em detalhes a vida indiana contemporânea?
Thrity Umrigar - Bem, ainda visito freqüentemente minha família, que vive na Índia. Na verdade, estou aqui agora. Então, isso ajuda. Além disso, a Índia não mudou tanto como você pensaria se lesse apenas as manchetes de jornais. Não escrevo muito sobre a cultura pop contemporânea como os filmes ou músicas recentes. Escrevo sobre coisas atemporais a cor do céu de Bombaim ou do Mar Arábico, a vida cotidiana das pessoas, a condição das ruas, o calor, as multidões. E essas coisas não têm mudado muito.
Foi difícil explorar como a imigração afeta as noções de identidade, família, casa e como essas definições mudaram com o tempo?
Na verdade não. Como imigrante, dediquei os últimos 25 anos a pensar sobre esses temas. Além disso, a literatura que leio muitas vezes lida com temas como identidade, que me interessam bastante.
Grace Butler foi inspirada em alguém em especial? Foi difícil criar uma personagem que está no limite da caricatura?
Não em uma pessoa. Mas, em meus muitos anos como jornalista em diversas redações, percebi como as pessoas que têm mais estilo que substância quase sempre chegam ao topo. Então quis escrever sobre isso, me divertir com isso. E eu decidi criar um personagem exagerado, alguém, como você diz, que esbarra na caricatura. A idéia original surgiu sob o signo da sátira um comentário sobre uma sociedade que recompensa esse comportamento.
A imigração costuma ser vista como um problema a ser resolvido. Foi difícil lidar com um tema como esses?
O livro é uma resposta a essa crença. Há muitos comentários pejorativos com relação à imigração nos Estados Unidos de hoje. E eu quis mostrar que imigrantes são pessoas reais, que fizeram escolhas muito difíceis, muitas vezes motivados por questões sobre as quais tinham pouco ou nenhum controle. Queria humanizar essa discussão, tirá-lo do domínio das manchetes de jornal e das salas de poder e levá-lo às casas das pessoas comuns.
Leitores já disseram que Tehmina se parece com uma Mary Poppins persa. O que pensa dessa interpretação?
Bom, um leitor afirmou isso. E imagino que o comentário não foi pensado como um elogio. Mas eu vi Tehmina em um contexto diferente o contexto de uma antiga crença persa segundo a qual é sua obrigação adoçar a vida daqueles à sua volta, especialmente se é um forasteiro em uma nova terra. Então, sim, Tehmina acaba abrilhantando a vida das pessoas que conhece. Acho que estamos tão acostumados à idéia de que a literatura deve ser sombria e Deus sabe que fui acusada muitas vezes de escrever histórias tristes que às vezes esquecemos que boas qualidades também precisam ser celebradas, tanto na vida real quanto na arte.


