LITERATURA - Silvio, 'Um Homem de Sorte'
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de dezembro de 2005
Patrícia Villalba<br> Agência Estado 
Silvio de Abreu se diz um homem de sorte porque trabalha com uma das grandes paixões brasileiras, as novelas. Tanto é, que escolheu esta definição como título de sua primeira biografia ''Silvio de Abreu, Um Homem de Sorte'' , lançada dentro da dentro da Coleção Aplauso, editada pela Imprensa Oficial de São Paulo. Boa parte dessa sorte parece residir na capacidade que ele tem de lidar com as adversidades que a vida foi lhe impondo nestes 63 anos de vida e mais de 40 anos de carreira no meio artístico, entre ator, diretor de cinema e escritor de novelas. Muitos desses obstáculos acabaram virando história, indo parar nas suas tramas e na boca de seus personagens. Como no caso do Chevrolet preto usado pelo serial killer de ''A Próxima Vítima'', sucesso que parou o País em 1995. Quando menino, Silvio foi atropelado por um carro daquele tipo e anos depois preparou essa espécie de vingança no plano ficcional.
O livro segue a estrutura da Coleção Aplauso, que apresenta perfis de personalidades em primeira pessoa no caso de Silvio, o trabalho é do jornalista gaúcho Vilmar Ledesma. Ele repassa os tempos de menino pobre da Baixada do Glicério e o flerte com o meio artístico. Fala também dos tempos como diretor de cinema na Boca do Lixo, em São Paulo é dele o clássico erótico nacional ''Mulher Objeto'' , além de detalhes sobre os bastidores de criação de suas novelas.
Nesta entrevista, concedida em seu apartamento nos Jardins, o autor de ''Belíssima'', atual sucesso no horário das 9 horas, fala um pouco mais sobre o ofício de autor de novela, profissão que vive no fio da navalha entre o amor e o ódio da audiência e da crítica. ''A novela é diferente da literatura, do cinema e do teatro, e não pode ser analisada em comparação a eles'', diz ele. ''Hoje, ela tem no Brasil o mesmo papel que o cinema teve nos EUA na Depressão dos anos 30. Serve para refrescar a cabeça.'' Confira a entrevista com Silvio de Abreu.
No livro, você demonstra que tenta seguir o caminho da razão para conquistar o público, que tradicionalmente se deixa levar pela emoção na hora de ver novela. Como é isso?
Você tem de conquistar o público com a emoção primeiro, para depois vir com a razão. As minhas novelas, por exemplo, sempre têm uma crítica social como pano de fundo, mas ela depende de uma segunda leitura do telespectador para ser absorvida.
E daí conseguir uma audiência fiel.
Gosto de fazer com que o telespectador fique grudado na TV. Não gosto da idéia de que as pessoas assistem à televisão porque não têm mais o que fazer. Porque dá muito trabalho fazer novela, então esta idéia é uma falta de respeito. Quero que eles assistam e gostem, ou que ao menos a novela produza algum ruído. Só este ruído já é um grande serviço que a novela pode prestar à sociedade, já que não é possível aprofundar nenhum tema nela não dá para propor uma discussão aprofundada num meio que é interrompido a cada 15 minutos para vender margarina e pasta de dente. Uma novela que não gera comentários não existe, não acontece.
Mesmo tendo o mistério, a crônica policial como marca, você gosta de experimentar novas fórmulas. Ainda dá para inovar no gênero?
Sim, porque, em primeiro lugar, a novela deve agradar a mim, que sou o primeiro espectador. E se eu estiver fazendo sempre a mesma coisa, dificilmente vai funcionar. Quando o capítulo vai para a produção, ele tem de conter sangue, suor e lágrimas. E, para isso, eu tenho de gostar do que estou escrevendo.
Ao que parece, você já escreve pensando em determinados atores. Por que prefere trabalhar assim?
Sou um autor de novelas, é a minha especialidade. Dentro da novela, sei que se não tiver o ator certo para representar determinado personagem, não vou conseguir passar a idéia que quero. Quando vou começar uma novela, faço uma lista dos atores com quem quero trabalhar. E então vou escrevendo de acordo com eles. Chego a ouvir vozes deles na minha cabeça.
Autor de novelas é, sem dúvida, uma profissão de imenso destaque. Mas, ao mesmo tempo, dentro do universo da dramaturgia, ela não é uma profissão das mais reconhecidas, principalmente pela intelectualidade. Isso chega a incomodar você?
Quando resolvi fazer novela, quis me livrar justamente desse ranço da pseudointelectualidade. É preconceito. Nos Estados Unidos há castas de atores. Aqui, todo mundo faz de tudo porque precisa sobreviver. Veja a Fernanda Montenegro, que concorre ao Oscar e faz novela. Sei que vão me xingar, mas a novela brasileira é mais importante do que o cinema brasileiro.
Mas há preconceito até mesmo entre alguns atores, que desprezam seus trabalhos em novela.
Mas se você soubesse o tanto de pedidos que a gente recebe deles quando está iniciando uma produção... Depois, eles vêm com aquela história de 'estou fazendo aqui esta novelinha, mas depois estarei no filme tal'.
No livro, você dá detalhes dos bastidores da criação da novela, e até mesmo dos momentos em que acha que errou e de onde tira inspiração para montar as tramas. Qual foi o momento mais difícil de sua carreira?
Foi ''Torre de Babel'' (1998), com certeza. Foi encomendada pelo Boni (então diretor-geral da TV Globo), que me pediu algo forte e polêmico e então botei droga, homossexualismo, violência. Me empolguei bastante, porque gosto disso. Mas o Boni saiu da Globo um mês antes de a novela estrear, e eu perdi o respaldo da emissora, porque a nova direção não queria todo aquele escândalo. Eles me pediram que diminuísse o impacto da novela, mas era impossível porque ela tinha sido concebida para ser daquele jeito. Daí, vieram as reclamações, da Igreja, da TFP, dos grupos disso e daquilo. Mesmo assim, foi um sucesso de audiência. Mas quando eu terminei, tinha certeza de que não escreveria mais novela, fui parar até na análise.


