O nome de sir Frank Kermode, acadêmico inglês nascido há 87 anos, faz tremer até os maiores especialistas shakespearianos. Ex-professor de literatura inglesa em Oxford, seu livro ''A Linguagem de Shakespeare'', lançado na Inglaterra há cinco anos, chega agora às livrarias brasileiras pela editora Record (em tradução da crítica Barbara Heliodora) e reafirma sua posição como um pensador original da obra do bardo.
Kermode, que escreveu sobre outros grandes escritores T.S. Eliot, D.H. Lawrence e Yeats, entre outros , considera esse ensaio superior ao recente ''The Age of Shakespeare'', que lançou em 2004, mesmo ano em que produziu outros dois livros, um com o filosofo francês Jacques Derrida e outro com o crítico literário americano Robert Alter. A seguir principais techos da entrevista em que Kermode e fala das liberdades indevidas tomadas com Shakespeare por contemporâneos e não se exclui da crítica.
Muitos críticos dizem que o espectador contemporâneo não está habilitado a compreender o discurso vernacular de Shakespeare ou mesmo suas alusões tópicas. Por outro lado, cineastas populares como Baz Luhrmann fazem adaptações de grande sucesso como ''Romeu e Julieta''. O senhor diria que o Shakespeare que vemos hoje não tem nada a ver com o Shakespeare real e que o público do século 21 é menos preparado para entender suas peças que o de sua época?
Estou certo que sim. O público de Shakespeare estava não só acostumado com sua linguagem como ia com frequência ao teatro e era capaz de entender a complexidade do dramaturgo. Ele se torna cada vez mais difícil a partir de Hamlet e leva o público com ele nesse caminhar evolutivo. Por outro lado, Shakespeare também era um homem de negócios e queria cativar o público. Com as adaptações modernas de Shakespeare ocorre o contrário. Os próprios diretores não estão muito certos do que querem dizer e pegam apenas a idéia geral da peça, esquecendo os detalhes, o que é inconcebível em se tratando de Shakespeare. Essa distorção muitas vezes é reforçada pela própria tradução. Na tentativa de se fazer compreender, o tradutor tropeça em passagens mais complexas e sacrifica o texto em busca de um ''sentido''.
Escrevendo numa linguagem cheia de invenções e um tanto obscura, Shakespeare permanece um mistério para muitos espectadores. O senhor recomendaria a leitura de suas peças no lugar de procurar respostas em encenações pirotécnicas de diretores que se imaginam mais geniais que o bardo?
Acabei de escrever o libreto de uma ópera do compositor alemão Alexander Goehr baseada em ''Rei Lear''. Há, com certeza, uma mutilação que acompanha toda adaptação e a nossa não deve ser muito diferente. Assim, acho que todas as pessoas deveriam ler os textos das peças de Shakespeare antes de entrar no teatro. Ignorar o texto é prejudicial como estudá-lo em excesso. Sim, porque o que Shakespeare propõe é uma espécie de tango linguístico. Não devemos esquecer que ele produziu essas peças há quatro séculos e que tende a ser mais complexo depois de Hamlet. Peças como ''Conto de Inverno'' estão cheias de armadilhas para incautos, porque muito do que não é dito nela é tão ou mais importante do que as falas.
Diretores contemporâneos de Peter Brook e Peter Hall costumavam usar Jan Kott como se fosse o Novo Testamento ao montar Shakespeare. Até hoje seus estudos são lembrados quando alguém resolve fazer, digamos, uma leitura política das peças. Quando o senhor escreveu ''A Linguagem de Shakespeare'' tinha em mente mostrar, ao contrário de Kott, que o seu desenvolvimento como poeta dramático era mais importante que os temas escolhidos pelo dramaturgo?
Pensei que Jan Kott já estivesse fora de moda. Alguém ainda fala nele aí no Brasil? Bem, deve-se reconhecer que ele mudou o panorama teatral, particularmente depois que Peter Brook adotou seus livros (entre eles ''Shakespeare, Nosso Contemporâneo'') como referência para suas montagens. A verdade é que, desde Brook, não vejo muita gente recorrendo à leitura política de Kott. De qualquer modo, moro no campo e, como estou com uma certa idade, não tenho acompanhado as novas produções. Contudo, não tinha Kott em mente ao escrever o livro. Minha preocupação, como escrevo no prefácio, é com o verso dramático de Shakespeare. Queria muito que o leitor não profissional, que gosta mas não faz teatro, tivesse acesso a uma discussão antes restrita à academia.
O senhor raramente cita colegas acadêmicos que escreveram estudos sobre Shakespeare. Posso lembrar, no momento, os nomes de Harold Bloom e Brian Vickers. Algo contra a interpretação deles?
Não exatamente. Vickers é um acadêmico com grande conhecimento de Bacon e seu livro que define Shakespeare como co-autor de peças atribuídas exclusivamente a ele foi muito importante para as modernas interpretações do dramaturgo. Com relação a Harold Bloom, posso dizer que somos, hoje, bons amigos, embora discorde dele em vários pontos. Devo observar que Bloom escreve sobre tudo, da Bíblia a Shakespeare. É, em suma, um egocêntrico.
O senhor analisa o possível catolicismo de Shakespeare em peças como ''Sonho de Uma Noite de Verão''. Qual a sua opinião sobre a crença religiosa do autor?
É tópico. Seu catolicismo está associado a um período muito difícil da história da Inglaterra. Em sua época não se podia, como se diz, ficar em cima do muro. As pessoas tinha de ser uma coisa ou outra, abraçando preferencialmente a religião do Estado. Alguém que a contestasse estaria em sérios apuros. Era uma espécie de guerra, ou melhor, uma guerra real com prisões, execuções e rainhas assassinadas. Era, portanto, difícil viver sem subscrever a religião oficial . De qualquer modo, não acho que Shakespeare tenha escolhido um dos lados, embora algumas peças evidenciem certos traços de catolicismo. É a discussão do momento, não é mesmo?

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