LITERATURA - Saudades do cão em livro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
A independência de Kurika impressionava até quem pouco o conhecia - disposto a atender apenas aos chamados que lhe interessavam, inteligente a ponto de conquistar a simpatia de um grupo seleto de pessoas, ele deixou forte lembrança no escritor português Manuel Alegre, que transformou tal relação no livro ''Cão como Nós'' (Agir, 124 páginas).
Kurika foi o cachorro de estimação de Alegre, um é ''pagneul-breton'' de manchas castanhas, gênio indomável e alma quixotesca. Especialista em relações humanas (sua capacidade de conquistar a atenção de quem lhe interessava era fascinante), o cão inspirou o escritor a produzir um texto em que discute relações. ''Não se trata da história de um bicho qualquer'', comentou Alegre, que, no sábado passado, teve um encontro com a escritora Lygia Fagundes Teles, na Bienal do Rio, onde discutiram lirismo e memória. ''Kurika era um cão com quem sempre tive uma tensa relação e, como um poeta, ele buscava a comunicação por meio da palavra exata.''
O texto poético e cuidadoso transformou ''Cão como Nós'' num grande sucesso editorial em Portugal, onde o livro vendeu mais de 100 mil exemplares. Nada surpreendente para quem acompanha a trajetória de Manuel Alegre - aos 71 anos, ele ostenta uma coesa carreira política. Além de poeta e romancista, ele é deputado pelo Partido Socialista português e, em 2006, concorreu às eleições presidenciais, ficando em segundo lugar, com 20,7% dos votos, derrotado apenas para o atual presidente português, Aníbal Cavaco e Silva, candidato de centro-direita.
Na verdade, sua carreira política é extensa, iniciada ainda durante a juventude, quando se rebelou contra a ditadura de António de Oliveira Salazar e pregou contra a guerra colonial. Como prestava o serviço militar, ele foi preso, em 1963, durante alguns meses, em Angola. Privado da liberdade, Alegre compensou com o refúgio oferecido pela escrita. Foi no cárcere que começou a escrever poemas de seu primeiro livro, ''Praça da Canção''.
Foi também atrás das grades que aprimorou o gosto da leitura. ''Li muito Carlos Drummond de Andrade, o que me fascinou'', relembra ele, que voltou a Portugal como clandestino até ser obrigado a viver exilado em Argel, durante dez anos. Nesse período, foi dirigente da Frente Patriótica de Libertação, além de também ter comandado um programa de rádio, ''A Voz da Liberdade''. ''Havia muita confiança, naquela época, de que a palavra poderia modificar a História.''
Apesar da dor e das privações com que foi obrigado a conviver, Alegre não produziu uma obra panfletária, o que assegura a perenidade especialmente de seus poemas.


