LITERATURA - SAMBA no feminino
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de julho de 2007
Roberta Pennafort<br> Agência Estado 
Dona Zica, Dona Neuma, Dodô da Portela, Tia Eulália, Alcione, Dona Ivone Lara, Ruça e outras grandes mulheres que devotaram a vida ao samba foram perfiladas no livro ''A Força Feminina do Samba'', que está sendo lançado pelo Centro Cultural Cartola. A publicação conta a trajetória de sambistas, porta-bandeiras e passistas, entre outras figuras relevantes das escolas de samba. O ponto de partida é Tia Ciata, em cuja casa, na Praça Onze, conforme diz a história repetida à exaustão, Donga compôs ''Pelo Telefone'', a primeira música do gênero gravada no País (a gravação é de 1916).
Financiado pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do governo federal, o livro recupera 60 histórias de vida jamais contadas, de jovens e senhoras que ajudaram a construir o samba carioca, seja cantando, seja trabalhando nos barracões ou cozinhando em quantidades industriais para os integrantes - função considerada nobilíssima, uma vez que as comilanças estão sempre presentes neste universo.
''O samba tem uma tradição oral muito forte. Não há muitas datas, sobrenomes, anos de nascimento. Era importante registrar isso antes que se perdesse'', lembra Rachel Valença, pesquisadora que atuou como consultora. ''O samba começou o século 20 sendo perseguido e terminou como símbolo da identidade brasileira. Essa história vitoriosa se deveu, em grande parte, ao trabalho dessas mulheres.'' Rachel é uma das homenageadas, por seus 35 anos no Império Serrano, agremiação da qual é vice-presidente cultural. Da verde-e-branco, foi lembrada uma de suas matriarcas, Tia Eulália, que, explodindo de orgulho, se dizia ''a número um do Império''. Era a principal personalidade feminina do Morro da Serrinha, berço da escola, fundada em seu quintal em 1947 - a primeira bandeira foi confeccionada por ela.
As grandes baluartes da Mangueira não poderiam ser esquecidas: Dona Zica, mulher e incentivadora maior de Cartola, e a incansável líder comunitária Dona Neuma, filha de Saturnino Gonçalves, um dos fundadores do Bloco dos Arengueiros, embrião da verde-e-rosa, aparecem em perfis e em belas fotografias.
Também estão no livro porta-bandeiras lendárias, como Dodô da Portela, Mocinha (da Mangueira), Selminha Sorriso (da Beija-Flor), Maria Helena (da Imperatriz) e passistas endiabradas, como Ruça (que mais tarde viria a ser dirigente da Vila Isabel) e Pinah (da Beija-Flor). O tributo se estende a carnavalescas, intérpretes, cozinheiras e até mulheres da alta sociedade que caíram de amores pelo universo do samba, além das anônimas que suam no duro dia-a-dia dos barracões.
A idéia de exaltar tais personagens foi de Nilcemar Nogueira, neta de Cartola e Dona Zica e presidente do Centro Cultural Cartola. Surgiu há uma década, mas só agora pôde, finalmente, transformar-se em livro (graças aos recursos da secretaria). ''O samba é um grande matriarcado. As mulheres não ficaram na vitrine, mas elaboraram a infra-estrutura das escolas, tendo papel fundamental'', contou.
Para Nilcemar, os registros reunidos servem como referência para se compreender a cultura afro-brasileira. ''Reunimos grandes histórias de superação, de pessoas que não perderam a capacidade de realizar, de doar, mesmo diante de dificuldades. O samba é uma grande festa.''


