As divagações introspectivas de Clarice Lispector (1920-1977) costumam ser impactantes para alguns leitores, capazes inclusive de arrastá-los para o turbilhão da escrita, mobilizando seus próprios talentos literários.
A arquiteta Lara da Cunha Galvão foi uma das que não saíram impunes das páginas legadas pela autora de ''Laços de Família''. Depois de mergulhar no universo da escritora, passou a escrever compulsivamente a ponto de conseguir reunir textos suficientes para publicação.
Seu livro de estréia, ''Nada Além de Todos os Dias'', será lançado hoje, às 20 horas, na Biblioteca Pública de Londrina. O volume reúne 41 contos e foi patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). Traz prefácio da atriz Thais D'Abronzo, texto de apresentação da poeta e jornalista Karen Debertólis e ilustração de capa de Rodrigo Mendonça.
Lara é de São Sebastião do Paraíso, interior de Minas Gerais, onde passou a infância e adolescência. Veio a Londrina para estudar Arquitetura e Urbanismo na UEL, onde se formou no começo desse ano. Começou a escrever poesia aos 12 anos, passando para a prosa aos 15, mas sem abandonar os versos. Foi nos últimos três anos, porém, que intensificou a produção literária adotando o conto como o gênero de preferência.
''Na verdade, são textos em prosa com poesia dentro. Quase todos foram escritos na primeira pessoa. Muitos deles são devaneios, frases puxando frases, sem apresentar uma história com personagens'' explica ela. A descrição, que sugere eventual semelhança com a literatura de Clarice Lispector, não é mero detalhe acidental. ''Li tudo dela, todas as obras. Foi o que me estimulou a escrever e publicar o livro'' conta.
A sombra de Clarice pousou até sobre seu trabalho de gradução na universidade, que propunha a construção de uma casa a partir das sensações despertadas pela leitura da escritora. Lara ressalta, porém, que a influência foi filtrada pelas experiências pessoais e os exercícios anteriores com a linguagem. Sua constelação de autores de cabeceira, aliás, destaca ainda o romancista português José Saramago e a inglesa Virginia Wolf.
Ostentando um piercing no nariz, ela revela que a idéia de lançar o livro surgiu quando se sentiu amadurecida para mostrar seus trabalhos. ''Antes só mostrava para os amigos íntimos'' salienta. Aos poucos, foi incentivada pelos poucos leitores a apresentar o projeto para o Promic, cuja comissão acabou aprovando a publicação.
Agora reunidos, seus escritos chegam ao público em redemoinhos de imagens e viagens interiores, como neste trecho de ''A Primeira Porta de Alguém'': ''Eu me sinto tão fora de tudo, porque meu tempo parece, em algumas horas, estar mais lento que o do universo, e, em outras, estar mais rápido, mas o equilíbrio demora a chegar. Eu que sempre o procurei, mesmo sem saber, o equilíbrio, e agora que tenho consciência ele me falta, como falta água nas plantas de casa, como estômago vazio. Eu me sinto assim ao vê-la depois de tanto tempo, e cada movimento seu é um gesto de sedução para meus olhos, e cada passo é mais lento. Espero que ela não venha de cabelos molhados, porque aquele cheiro, para mim, é a morte mais sedutora; eu que morria todos os dias e nascia sem mesmo fazer força, eu que vinha de parto normal, escorregada''.
Jovem, aos 23 anos, Lara anuncia que já está escrevendo um romance. ''Mas não sei quando vai ficar pronto, porque também traz devaneios'' avisa. Contaminada pela poesia, sua prosa salta da gaveta.

Serviço:
- Coquetel de lançamento do livro ''Nada Além de Todas as Coisas'', de Lara Galvão. Hoje, às 20 horas, na Biblioteca Pública de Londrina (Av. Rio de Janeiro, 413)

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