O escritor Agassiz Almeida desceu aos porões da ditadura militar para ouvir o que a história tinha a revelar sobre o período que varreu a América Latina. Um encontro que ainda precisa acontecer com outras vítimas e familiares que lutam para poder ouvir tudo o que os fatos históricos de um período tenebroso têm a dizer.
Ao contrário de outros países que estiveram mergulhados em ditaduras militares, como a Argentina, Chile e Paraguai - que viveu sob o domínio do medo por mais de 40 anos - e que já abriram os arquivos da opressão, o Brasil ainda espera por um encontro com a história.
''Uma elite militar reacionária e carcomida insiste em não abrir os arquivos. Na Igreja existem padres deformados, na academia há professores deformados, como também temos militares assim e que querem ficar abafando a história. Um dia, acho justo que seria importante a abertura desses arquivos brasileiros. Não queremos um julgamento de punição dos culpados, mas que sejam levados ao julgamento da história. Porém, isso eles não querem. Queremos que a história seja encontrada, como a dos militares que mataram 70 jovens no Araguaia. Eles são genocidas e a nação brasileira precisa desse julgamento'', destaca Almeida, que lança amanhã, às 19 horas, nas Livrarias Curitiba Megastore, no Shopping Estação, em Curitiba, o livro ''A Ditadura dos Generais'' (Bertrand Brasil, 544 págs, R$ 50).
Almeida, que morou em Londrina, onde permaneceu escondido por 11 anos, atuando clandestinamente como advogado, conheceu os corredores da ditadura brasileira. Preso na Paraíba, ele foi conduzido para Recife (PE), permanecendo no cárcere por dois meses em Fernando de Noronha.
Para o escritor, na realidade e ao contrário do que a maioria das pessoas acredita, a tortura e a ameaça de morte roubam qualquer manifestação de heroísmo dos condenados, que caminham para a execução com os sentimentos amordaçados pelo medo.
''A vítima perde o horizonte do que é a sua vida. A maioria fica quase louca. Você se transforma num joguete daquelas forças, que são imprevisíveis, e não sabe para onde estão lhe conduzindo. Eu senti isso. Porém, a natureza é sábia e nos defende bem. Quando, eu seria fuzilado me idiotizei. A natureza te defende assim. É uma forma que encontra para nos proteger da loucura'', avalia o autor, que em Londrina participou como advogado assistente de acusação de um dos maiores julgamentos da história do Paraná, que durou cerca de 10 dias. Na época, 11 PMs, inclusive um major, foram julgados pelo crime conhecido como ''A Chacina de Cornélio Procópio'', ocorrida em 1963. Os soldados teriam fuzilado uma multidão que tentava linchar um preso, matando e ferindo um número até hoje não apurado de pessoas.
Ele conta que um dos 11 envolvidos teria dado entrevistas à TV em que questionou a atuação dele, um comunista, e de um dos jurados, que seria homossexual, ao dizer que os dois estariam de conluio.
Episódios do ex-deputado federal, que teve o mandato cassado, autor também do livro ''A República das Elites'', e que escreveu ''A Ditadura dos Genarais'' por sugestão do escritor argentino Ernesto Sábato. ''O ex-presidente argentino Raul Alfonsín tinha nomeado uma comissão de escritores para fazer um levantamento sobre os mortos da ditadura naquele país. Fui ao encontro de Sábato, que sugeriu que fizesse o mesmo no Brasil. Comecei a escrever sobre a Argentina, que foi uma das ditaduras mais cruéis da humanidade. Não em quantidade de vítimas, mas de degradação humana, pior que a nazista e, por isso, chamo-a de nazimilitarismo no livro.
Morando em João Pessoa (PB), Almeida destaca as influências do militarismo alemão do século 19 nas ditaduras latino-americanas e o medo da repercussão da Revolução Russa.

SERVIÇO:
- Lançamento do livro ''A Ditadura dos Generais'' (Bertrand Brasil, 544 páginas), de Agassiz Almeida
Quando - Amanhã, às 19 horas
Onde - Livrarias Curitiba Megastore, Shopping Estação, em Curitiba
Quanto - R$ 50

mockup