Curitiba Mesmo com uma bagagem de quase uma dezena de livros publicados e uma carreira de mais de 50 anos como poeta, o principal representante da poesia concreta no País, Décio Pignatari, não disfarça a empolgação ao falar de seu último livro ''Céu de Lona'', lançado no mercado a partir deste mês. Como a mulher grávida pela primeira vez, que não vê a hora de ver o rosto de seu bebê, aos 76 anos de idade ele também conta os minutos para ver sua primeira obra dramática tomar corpo em cima de um palco.
As pretensões são grandes. Pignatari sonha em estrear a obra no Teatro Municipal do Rio Janeiro, que no século XIX foi cenário das histórias vividas pelo escritor Machado de Assis e sua mulher Carolina Augusta Xavier de Novaes, principais personagens de ''Céu de Lona''. ''Queria ver a peça no Municipal do Rio, depois no Municipal de São Paulo e, é claro, na cidade do Porto, em Portugal, que é a terra onde Carolina nasceu'', diz.
A peça tinha um futuro quase certo, nas mãos do diretor teatral Gerald Thomas, com estréia prevista para o 13º Festival de Teatro de Curitiba, que acontece no próximo mês. O projeto acabou dando errado depois que Thomaz foi processado judicialmente por decoro público ao abaixar as calças para o público carioca, que o vaiou em sua montagem de ''Tristão e Isolda''.
''Chamo de Gerald Thomas AB e DB, Antes da Bunda e Depois da Bunda. Ele negou-se a cumprir a pena dada pelo juiz, para dar um certo valor para entidades de caridade, quis criar caso e disse que seria o primeiro exilado do governo Lula.'' Como consequência, Pignatari não vê mais chances de que alguma empresa aceite patrocinar suas peças. ''Ninguém vai querer botar dinheiro sabendo que ele pode provocar escândalo. Então, morreu'', diz.
O fim da parceria com o polêmico Gerald Thomas pode ser a porta para que Pignatari consiga realizar seu sonho. Se pudesse escolher, queria o atual articulista e cineasta Arnaldo Jabor como diretor. ''A peça tem alguma coisa de cinema, e ele fez grandes filmes, como como 'Toda Nudez será Castigada', 'Eu te Amo', que gosto muito.'' Ele também tem suas preferências para atores: Giulia Gam como Carolina e Matheus Nachtergaele como Machado de Assis. ''Só teria que pintá-lo de mulato. Mas isso é com o diretor, eu só dou palpites.''
Pignatari surgiu como poeta em 1949, escrevendo ao lado de Haroldo e Augusto de Campos. Desde então, publicou livros de ensaios, poesias, prosa e um romance, além de participar dos principais eventos de poesia concreta do País. ''Céu de Lona'' é o segundo livro que Pignatari escreve em Curitiba, cidade onde vive há cinco anos e para onde veio justamente com a intenção de escrever.
''Em matéria de teatro, sou como Baudelaire, só gosto do lustre'', diz o poeta, que critica a atual fase do teatro brasileiro, como sendo ''um teatro de encenadores, onde o texto passou a não importar'', diz ele, que além de escritor, publicitário e advogado, traduziu várias obras em inglês e francês, deixando claro seu apreço pelas palavras. Mas, então, por que uma peça de teatro?
''Essa peça foi auto-surpreendente, um tanto súbita. Não sei explicar por que, já que esse não é exatamente o meu site'', responde. Ao mesmo tempo, lembra que sempre seguiu seus mestres, em especial Oswald de Andrade, que atuava em vários setores, como a poesia, narrativa, prosa e teatro. Ele conta que o livro ''é resultado de longos processos de insatisfações e paixões ao mesmo tempo''.
Paixão por Machado de Assis, a quem considera como o maior prosador brasileiro do século XIX. ''Mas isso depois dos 40 anos, após sua doença, quando foi a Friburgo (RJ) para se curar da pneumonia, e depois da Carolina, sua mulher'', conta, dizendo que essa mudança de Machado de Assis sempre o intrigou muito. ''Se ele tivesse morrido antes disso, teria sido um escritor de terceito ou quarto nível, inclusive mau poeta. Nem grande prosador seria'', afirma Pignatari, que considera ''Memórias Póstumas de Braz Cubas'', primeiro livro dessa nova fase como ''a melhor obra do escritor, que rompe com passado e inaugura a grande prosa dele e a grande prosa brasileira''.
As insatisfações vão por conta das abordagens dos críticos. ''São pobres, conservadoras, insatisfatórias, nunca conseguem entender e dizer o porquê que Machado de Assis era grande mesmo.'' A segunda insatisfação refere-se aos biógrafos. Para ele, os acadêmicos pecam por pudores moralistas e os jornalistas por não terem método científico. Por conta da ''hipocrisia'' dos primeiros, segundo ele, muito pouco seria conhecido a respeito de Carolina.
Dúvidas e enigmas também se transformaram em paixões. ''Sempre me perguntei por que uma certa portuguesa, branca, chega ao Brasil em 1867 e dois anos depois casa-se com um mulato brasileiro, gago, baixinho e epilético? E por que que o Machado muda por conta disso?'', questiona. A resposta veio através do biógrafo francês Jean Michel Massa, que escreveu estudo detalhado sobre a juventude de Machado até seu casamento com Carolina.
Segundo Massa, Carolina irmã do poeta Faustino Xavier, amigo de Machado e do escritor português Camilo Castelo Branco mudou-se para o Rio a pretexto de cuidar do irmão doente, quando na verdade tinha sido seduzida, deflorada e abandonada. ''Ela foi exilada, expulsa pela família. Os pais eram joalheiros, ourives intelectuais e tiveram um grande desgosto. Só por isso ela pôde casar com um negro'', diz. Machado de Assis, no entanto, também teve sua compensação, já que queria se passar por branco e defendia princípios da monarquia.
''Em torno disso é que montei minha ficção. É uma peça de idéias. Ela é personagem principal, e faz um pacto de casamento e vingança. Para se vingar da família, ela se propõe a casar com um negro. E aí vem todo o relacionamento conflituoso, amoroso e erótico dos dois.''
As mulheres são também maioria na elaboração do livro, que conta com duas ilustradoras: Maria Ângela Biscaia, de Curitiba, responsável pelas ilustrações a cores; e Liriam Palombini de Minas Gerais, que fez linotipias em preto-e-branco. O projeto graáfico ficou por conta de Jussara Salazar, da Travessa dos Editores.


Serviço:
- Céu de Lona, de Décio Pignatari. Editora Travessa dos Editores, 2003. 72 páginas. R$ 50. Ilustrações: Maria Ângela Biscaia e Lyria Palombini. Editor: Fábio Campana. Projeto gráfico: Jussara Salazar.

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