''Na sua lua-de-mel, ainda, com Mussolini e com Hitler, o chefe do governo deposto a 29 de outubro (Vargas) fez proibir ''O Grande Ditador' (de Charles Chaplin), no qual via uma caricatura do totalitarismo em geral.'' ''Proibido o filme, deu-se uma coisa: do território do Rio Grande do Sul, de várias cidades, correram trens especiais para o Uruguai país livre e democrático só para levar pessoas curiosas para admirar ''O Grande Ditador'.''
O relato de um ex-redator do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), órgão de censura que caracterizou o governo de Getúlio Vargas no período do Estado Novo (1937-1945) é reproduzido pelo pesquisador José Inacio de Melo Souza em seu livro ''O Estado contra os Meios de Comunicação (1889-1945)''.
Editado pela Fapesp e Annablume, o volume condensa a dissertação de mestrado defendida por Melo Souza na Escola de Comunicações e Artes da USP.
O autor classifica a censura à obra de Chaplin como ''o caso mais grave de desentendimento do DIP com o cinema americano''. Além das implicações diplomáticas envolvidas na prática da censura a filmes estrangeiros no Brasil, a obra vasculha a relação do Estado com a imprensa e o rádio, a partir de 1889, quando o governo era outro (Deodoro da Fonseca ), o DIP ainda não existia e ''o meio de comunicação mais importante era a imprensa''.
A principal fonte de pesquisa de Melo Souza foram os arquivos do DIP, franqueados aos pesquisadores pelo Arquivo Nacional. Neles, o autor não encontrou os famigerados boletins de censura.''Os boletins da censura podem nunca ter existido, no estilo de documento que (o pesquisador) Inimá Simões encontrou para fazer o seu trabalho sobre a censura no regime militar (''Roteiro da Intolerância'', editora Senac)'', diz.
Melo e Souza conclui que ''nos anos 30 e 40, os censores assistiam aos filmes e assinavam os certificados de liberação, somente, sem deixar um parecer por escrito''. Mesmo que laterais, os documentos pesquisados no Arquivo Nacional são suficientes para dar a conhecer o ponto de vista dos censores. ''O Estado contra os Meios de Comunicação'' diz que a censura à produção nacional era feita com base no gosto dos censores, ''área restrita da burocracia, sobre quem a sociedade não podia exercer qualquer controle''.
''Parece-me bem evidente que o gosto era o da elite, mesmo que esta fosse representada por um Vinicius de Moraes que, como crítico de cinema na década de 40, só via cinema estrangeiro e gostava do cinema mudo'', diz o autor.
Para a produção internacional, valiam outros critérios. ''A situação de dominação estrangeira obrigava os censores à utilização de uma razão diferente daquela a que estavam acostumados a empregar na análise do filme brasileiro, ou seja, as razões do Estado sobrepunham-se às de gosto pessoal'', afirma Melo Souza no livro.


SERVIÇO
- O Estado contra os Meios de Comunicação (1889-1945), de José Inacio de Melo Souza. Editora: Fapesp e Annablume (11) 3031-9727. R$ 25,00. 229 páginas.

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