LITERATURA - PAULO AUTRAN em palavras
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006
Daniel Piza<br> Agência Estado 
''O ator não tem direito ao próprio corpo nem à própria cara.'' Isso é o que Paulo Autran diz na página 255 do belo livro ''Sem Comentários'' (Cosac Naify, 272 págs., R$ 85). Mas o que nos chama a atenção no volume é justamente o contrário: é a riqueza característica desse rosto, é sua capacidade de visitar todas as escalas da interpretação, da comédia à tragédia, e de lá voltar sem máscaras. Muitos atores, incluindo alguns dos grandes, perdem a face para seus personagens e passam a atuar com tiques e truques, como caricaturas de si mesmos, como se ademão tivesse ocupado o lugar da superfície. Autran sabe ser tomado pelo personagem. Não tem direito à própria cara enquanto o representa, mas a recupera depois; só assim pode dar esse direito ao seguinte.
Apesar do título, o livro não vale apenas pelas excelentes fotos, que prestam tributo à sua carreira de quase 60 anos, mas também pelos comentários que Autran faz ou cita a cada uma. Não tem pudor em comentar seus próprios excessos, como o ataque de vaidade que teve numa de suas primeiras peças, ''Don Juan'', de Guilherme Figueiredo, em 1950, ao se sentir ofendido porque as falas mais engraçadas eram de outro personagem, Leparela, feito por Armando Couto. Foi Tônia Carrero quem apelou ao seu bom senso. Autran conta também passagens ilustrativas como a de Adolfo Celi, durante os ensaios para ''Assim É... (se lhe Parece)'', de Pirandello, em 1953, mandando-o descer e subir correndo a escada dez vezes, para aí sim achar o tom oral da fúria do sr. Ponza.
É um prazer ler também os trechos de crítica que Autran menciona. Quem melhor escreveu sobre ele foi Décio de Almeida Prado, no jornal ''O Estado de S. Paulo'', numa sucessão de ocasiões. Décio apreciava especialmente quando Autran punha uma nota sóbria em sua natureza teatral. ''Como ator, não precisa mais sequer erguer a voz para sugerir força e autoridade'', assim descreveu sua atuação como Creonte em ''Antígone'', versão de Jean Anouilh para o texto de Sófocles, em 1952. A foto da montagem parece comprovar: traz Autran de olho em Cacilda Becker, como se fossem duas efígies de intensidade. Sábato Magaldi foi na mesma linha, em 1967, ao avaliar seu Édipo: ''Paulo Autran é sem dúvida o nosso ator mais qualificado para encarnar o herói sofocliniano, e o porte, a autoridade, o domínio cênico dão plena convicção ao seu trabalho.'' Paulo Francis e Bárbara Heliodora, que tanto o atacaram, não ganham nenhuma linha.
É curioso que os críticos se refiram tanto ao porte de Autran. Ele não é alto nem forte, mas sua postura, assim como sua voz, irradia uma segurança, uma concentração, que chama os olhos da platéia para si. Em ''Rei Lear'', por exemplo. O crítico inglês Kenneth Tynan disse que o personagem de Shakespeare derrotou tanto John Gielgud como Laurence Olivier. Mas quem no Brasil senão Autran poderia ser derrotado por Lear com tanta majestade como ele foi em 1996, sob direção de Ulysses Cruz? Seu grito por Cordélia era arrancado das ruínas.
O que é raro é encontrar um ator que tem recursos de ''diseur'', autor de gravações de poemas de Carlos Drummond de Andrade e contos de Machado de Assis, mestre do ''timing'' da fala, e ao mesmo tempo possui tal presença física; e que faz essas duas forças se encontrarem no rosto, vértice de seu magnetismo. Nesse rosto, as projeções do nariz ligeiramente adunco e do queixo ligeiramente pontudo podem ser moldados para a comédia, do pastelão à sofisticação, e podem também assumir todos os ângulos do sofrimento, na tragédia mais carnal ou no drama mais intelectual.
Seguir as fotos do livro (ao qual falta apenas um índice das peças) é ver a abrangência dessa carreira. Autran fez muitos dos grandes personagens clássicos; além de Édipo, Creonte e Lear, foi Otelo (''Vi no Brazyl uma interpretação genial de Otelo feita por Paulo Autran'', escreveu em 1960 Glauber Rocha, que o dirigiria em ''Terra em Transe'' sete anos mais tarde) e ''Macbeth'', foi o ''Burguês Fidalgo'' de Molière e o ''Dom Quixote'' de Cervantes. Fez ''Ibsen'', fez ''A Dama de Camélias'', fez comédias refinadas de Bernard Shaw e Noel Coward. Os modernos não foram menos numerosos: Arthur Miller, Beckett, Pinter, Sartre (''O inferno são os outros'' foi a ele que coube a famosa frase da peça ''Entre Quatro Paredes''), Brecht. Fez brasileiros de Gonçalves Dias a Mauro Rasi, passando por marcos como ''Liberdade, Liberdade'', de Flávio Rangel, e ''Morte e Vida Severina'', de João Cabral. E assim continua até hoje, buscando textos contemporâneos como ''Visitando o Sr. Green'' e ''Variações Enigmáticas''.
É um ator que fez jus ao direito de tantos corpos e tantas caras.


