LITERATURA - Paraty ficou pequena para acomodar a Flip
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de julho de 2007
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
A Festa Literária Internacional de Parati (Flip) tem 5 mil novos espectadores a cada ano. Em sua quinta edição, que terminou domingo, 15.583 pessoas compraram ingressos para acompanhar as 21 mesas de debates na tenda dos autores e outro tanto (15.874) na tenda da Praça da Matriz. Tanto sucesso tem seu preço. Programado para ser um festival das letras compatível com o tamanho da cidade, a Flip extrapolou os limites. Paraty não tem infra-estrutura para atender tanta gente. Se, em 2006, foram 12 mil visitantes atraídos pela festa, este ano esse número quase dobrou, chegando a 20 mil, segundo dados fornecidos pela organização do evento. Faltou energia elétrica no sábado e a espera nos restaurantes chegou a quase duas horas. Só a organização da Flip envolve uma equipe de 300 profissionais contratados e 200 voluntários, entre produtores, educadores e tradutores à disposição de 76 autores de 11 países (50 escritores e mediadores nas mesas e outros 26 na Flipinha, a versão da festa para o público infantil - mais de 10 mil crianças de 37 escolas da cidade, da zona costeira e rural).
Segundo o presidente da Associação Casa Azul, Mauro Munhoz, responsável pela organização da festa literária, a falta de luz durante a Flip foi um ''índice da importância'' do evento, que não deverá sofrer muitas alterações de formato para acomodar mais espectadores. Este ano, a tenda dos autores, que comporta 800 pessoas, chegou a receber mil nas mesas mais concorridas, como a do Nobel sul-africano J.M. Coetzee. Quem comprou ingressos com antecedência saiu prejudicado, porque não há cadeiras numeradas. Munhoz garantiu que não foram vendidos ingressos a mais. Atribuiu o excesso de público a uma eventual falta dos controladores das catracas, que podem ter recebido ingressos de mesas menos concorridas.
Seja o que for, o fato é que a Flip, paradoxalmente, precisa parar de crescer para sobreviver. Este ano ela ficou mais discreta que a edição anterior, marcada por incandescentes debates políticos. Deixou-se de lado a ideologia e discutiu-se mais a forma literária, embora algumas mesas (como a do debate entre Robert Fisk e Lawrence Wright) tenham sido marcadas por temas como terrorismo islâmico e o neocolonialismo (discutido por Luís Felipe Alencastro ao analisar ''O Coração das Trevas'', de Joseph Conrad).
A curadoria do jornalista Cassiano Elek Machado revelou-se bastante equilibrada, reunindo ganhadores do Nobel (Coetzee e Nadine Gordimer) e escritores de primeira viagem (o estreante Ishmael Beah e a brasileira Ana Maria Gonçalves, que ganhou o prêmio Casa de Las Américas de 2006 com ''Um Defeito de Cor''). Machado não adiantou quem está na lista dos convidados de 2008, mas citou dois nomes que a Flip persegue desde a primeira edição: o italiano Umberto Eco (''O Nome da Rosa'') e o norte-americano Philip Roth (''Complexo de Portnoy'').
Entre as 21 mesas realizadas, a que despertou maior interesse do público foi a da sul-africana Nadine Gordimer e do israelense Amós Oz. As que soltaram maiores faíscas foram as do inglês Will Self e do americano Jim Dodge, um iconoclasta e um sobrevivente da geração hippie, e aquela que reuniu Lawrence Wright e Robert Fisk, em que este só faltou chamar seu interlocutor de idiota. Na primeira, Will Self não chegou ao ultraje porque o mediador Arthur Dapieve deu uma rasteira em seu pantagruélico ego.
Espera-se que a próxima edição da festa reflita o êxito da experiência de abertura da Flip para formas literárias como a teatral, a musical (o encontro de Lobão com o poeta Chacal) e a visual (foi lançada pela Nova Fronteira uma graphic novel de ''O Beijo no Asfalto'' por Arnaldo Branco e Gabriel Góes), consagrando novos autores cuja participação na vida literária ainda é tímida.


