LITERATURA - Palavras femininas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de dezembro de 2005
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
O ano literário brasileiro termina marcado por palavras com um profundo toque feminino. Damas da literatura, Lygia Fagundes Telles e Nélida PiÀon ofuscaram os colegas das letras pelo simples fato de trazerem para o Brasil os principais prêmios do ano em maio, Lygia foi surpreendida durante a Bienal do Livro do Rio ao ser informada de que era a nova vencedora do Prêmio Camões, um dos mais prestigiados em língua portuguesa. No mês seguinte, depois de derrotar pesos pesados como os americanos Paul Auster e Philip Roth e o israelense Amós Oz, Nélida foi anunciada como a primeira mulher de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras, mais importante comenda literária da Espanha.
Se por um lado coroou duas carreiras que legitimam o Brasil diante do mundo, a premiação, acompanhada de entrevistas intermináveis, tomou boa parte do tempo das escritoras, que se viam, aflitas, longe de seu ofício. ''Eu chegava, às vezes, a roubar tempo das minhas madrugadas para poder escrever'', diz Nélida, premiada ainda com o Jabuti de melhor ficção deste ano, entre outras lembranças.
Já Lygia, que pediu (e conseguiu) o adiamento da entrega do Camões, pois precisava descansar, entregou-se à leitura. ''Eu lia para me consolar diante do pessimismo que marcou nossa sociedade durante quase todo este ano'', comenta ela, lembrando-se, porém, de um momento alegre o da comemoração do prêmio, quando almoçou com Rubem Fonseca que, de brincadeira, pediu-lhe em casamento.
Explica-se: o Camões oferece um prêmio de 100 mil euros, cerca de R$ 320 mil. ''Rubem venceu há dois anos e, quando perguntei o que fez com o dinheiro, ele simplesmente respondeu que já gastou tudo.'' Também o Astúrias trouxe uma quantia generosa a Nélida, que recebeu 50 mil euros. As cifras, no entanto, são ínfimas se comparadas ao valor incalculável de cada obra.
À frente do grupo dos autores contemporâneos que têm a escrita como testemunho da vida, as amigas Lygia e Nélida sabem que utilizam a escrita para contar uma história, a própria história. Constroem uma carreira com um estilo elegante, ecos machadianos e um permanente estado de espírito que permite manipular a escrita com firmeza e serenidade.
Como, então, lidam com a imagem profissional de escritor? ''Eu me habituei de tal modo que, há muitos anos, digo uma coisa que surge de uma crença absoluta, não é relativa não, é absoluta: sou escritora 24 horas por dia'', comenta Nélida. ''Não como se eu estivesse extraindo nacos de carne do outro que vai me fornecer subsídios, não é isso. Porque a escrita para mim não é um acidente moral, não é um ato profissional, a não ser os textos encomendados. A minha natureza de escritora está presente onde meu corpo está. Então eu não separo, porque onde quer que eu esteja está a minha memória, está a minha visão do mundo, está a maneira de me comportar, de ser. Eu não sou outra coisa na vida que não escritora.''
Para Lygia, também o ato da escrita significa uma entrega absoluta do autor. ''Para escrever, você precisa se dedicar de corpo e alma a seu personagem, a seu enredo e à sua idéia'', explica. ''É preciso que seja um ato de amor, uma doação absoluta, e é impossível sair do transe enquanto não dá a história por acabada, enquanto não decifra o humano. O detalhe é que o ser humano é indefinível. Por mais que tente, você não consegue defini-lo totalmente. O ser humano é inalcançável, inacessível e incontrolável, ele está sujeito a esses três 'Is'.''
E o ponto de partida sempre foi e será a terra natal. Nélida conta, por exemplo, que, apesar das inúmeras viagens por diversos países (e o ano reservou-lhe uma agenda carregada), o Brasil é seu porto seguro, a ponto de já ter recusado convites estrangeiros para o início do próximo ano. ''Tenho uma irrestrita devoção ao Brasil, mesmo amando a Espanha profundamente'', afirma. ''Viajo muito, mas sou uma mulher que pensa o tempo todo em meu país. O Brasil para mim é uma terra irrenunciável, é uma aprendizagem contínua e é o prisma brasileiro que me faz exercitar a minha exegese.''
Também apaixonada por sua terra, Lygia revela que seu aprendizado vem das coisas mínimas que marcam sua rotina. ''É preciso conservar a fé na literatura, senão você não consegue escrever'', afirma. ''E.M. Cioran, o mais triste dos filósofos, dizia: 'Não quero a sabedoria da desilusão. Quero a sabedoria da ilusão, que é o sonho.' A desilusão, sem dúvida, é sábia e é maliciosa. Mas Cioran prefere a sabedoria do sonho, e eu também. Temos de nos embriagar com essa liberdade para sonhar, e para acreditar.''
Lygia lamenta que o ano agitado tenha limitado suas visitas à Academia Brasileira de Letras, que a abriga como imortal assim como Nélida que, aliás, presidiu a casa. ''Fui apenas em duas oportunidades'', conforma-se. ''Mas acompanhei o sucesso merecido de Nélida pela imprensa, o que me conforta.''


