Ficou difícil ignorá-la. Tratada por alguns como uma mera coadjuvante na vida tumultuada do poeta e escritor modernista Oswald de Andrade, Pagu (1910-1962) tem sua trajetória desvendada em uma série de livros, que se sucedem nas prateleiras destacando-a como escritora, jornalista e ativista de esquerda.
Só neste ano, três novos títulos estamparam seu nome nas capas. Salvo engano, nenhuma celebridade do mundo cultural foi tão homenageada pelo mercado editorial nesta temporada. O lançamento mais recente é ''Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão: A Experiência do Suplemento Literário do Diário de São Paulo nos anos 40'', de Juliana Neves.
A obra originou-se de uma tese defendida em 2003 no Programa de Estudos de Pós-Graduados em Ciências Sociais na PUC-SP. A autora examina a colaboração do casal sob os ângulos pessoal e profissional assinalando a importância do caderno na vida cultural paulistana dos anos 40 e seu papel na transição entre os modernistas de 1922 e a geração do pós-guerra.
Também da última safra, o livro ''Pagu A Luta de Cada Um'' traz uma biografia romanceada da personagem. De autoria de Lia Litz, é dirigido para o público jovem. Foi concebido a partir de um episódio que foi notícia em todo o País há pouco mais de 1 ano quando uma catadora de papel (Selma Morgana Sarti) encontrou um saco de valiosos documentos sobre Pagu.
Intuindo que tinha um material importante em mãos, ela optou em guardá-lo em vez de descartá-lo para a reciclagem como fazia todos os dias. Orientada por dois vizinhos, alunos de pós-graduação da Unicamp, decidiu doar o material ao Arquivo Edgard Leuenroh (AEL) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). O gesto teve grande repercussão nos jornais e nas principais redes de televisão.
Um ano depois, a história foi parar no livro. Com base no fato real, Lia transformou Selma em Telma, a personagem-narradora da trama. Ainda dentro do processo de redescoberta de Pagu, pulou há pouco da gráfica o volume ''Paixão Pagu A Autobiografia Precoce de Patrícia Galvão'', originalmente uma carta escrita pela autora ao marido Geraldo Ferraz, em fins de 1940.
A obra apresenta um testemunho comovente, chocante em certas passagens mais confessionais. Sem subterfúgios, ela fala desde as relações familiares até seus encontros com Luís Carlos Prestes, Jorge Luis Borges, Raul Bopp passando pela militância política no Partido Comunista e o posterior desencanto com o regime soviético.
Impressiona como a mulher que parecia uma explosão de sensualidade revela só ter conhecido o prazer depois da primeira maternidade, portanto quase 10 anos após o início de sua vida sexual. A figura de Oswald de Andrade não sai intacta do texto. Ele, que deixou a pintora Tarsila do Amaral ao se apaixonar por Pagu, então uma garota emancipada de 19 anos, surge aqui como um sujeito cruel e até desprezível.
Não sem uma certa amargura, ela relata as aventuras extra-conjugais do criador do manifesto antropofágico. ''Muitas vezes fui obrigada a auxiliá-lo, para evitar complicações até com a polícia de costumes. O meu sofrimento mantinha a parte principal da nossa aliança. Oswald não era essencialmente sexual, mas, perseguido pelo esnobismo casanovista, necessitava encher quantitativamente o cadastro de conquistas.
Eu aceitava, sem uma única queixa, a situação'' anota num trecho. Pagu tinha apenas 30 anos quando escreveu sua carta-confissão. Embora precoce, a autobiografia traz a mesma densidade com que a autora viveu seus 52 anos. O volume inclui fotos, fac-símile de um trecho de carta datilografada por Pagu, textos de seus filhos Rudá de Andrade e Geraldo Galvão Ferraz (responsável pela edição), além de um ensaio do pesquisador Kenneth David Jackson, especialista em literatura de língua portuguesa e na obra da autora.
O movimento editorial em torno de seu legado não pára por aí. Chegará brevemente às prateleiras a reedição de ''Parque Industrial'', único romance escrito por Pagu, que o publicou em 1933 sob o pseudônimo Mara Lobo. ''Parque Industrial'', aliás, é objeto de análise do livro ''Pagu Literatura e Revolução'', lançado há dois anos por Thelma Guedes. O estudo problematiza o lugar marginal reservado ao romance pela historiografia literária conferindo-lhe uma nova interpretação.
Mais do que a musa dos modernistas, como é costumeiramente rotulada, Pagu foi uma das personalidades femininas brasileiras mais marcantes do século XX. É o que demonstra a emergente fornada de títulos em torno de sua vida e obra.

Serviço:
- ''Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão A Experiência do Suplemento Literário do Diário de São Paulo nos anos 40''. Autora: Juliana Neves. Editora Annablume. Tel. (11) 3812-6764 ou 3814-2776.
- ''Pagu A Luta de Cada Um''. Autora: Lia Zatz. 98 páginas. Editora Callis. Tel. (11) 3068-5600.
- ''Paixão Pagu'' A Autobiografia Precoce de Patrícia Galvão''. Organização de Geraldo Galvão Ferraz. 164 páginas. Editora Agir. Tel. (21) 3882-8212.
- ''Pagu Literatura e Revolução''. Autora: Thelma Guedes. 160 páginas. Editoras Nankin e Ateliê. Tels. (11) 3105-0261 e (11) 4612-9666.

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