O homem que contestou o best-seller ''O Código Da Vinci'', acusando Dan Brown de ter apresentado Leonardo de forma ''inapropriada'' e ''diminuído'', está de volta à polêmica. Agora, para defender informações contidas no próprio livro. A editora Objetiva está lançando ''Leonardo Da Vinci - Arte e Ciência do Universo'' (160 págs., R$ 35,90), do crítico italiano Alessandro Vezzosi, diretor do museu que leva seu nome na cidade toscana de Vinci. O livro integra a coleção ''Descobertas'', idealizada pela Gallimard. É mais que um guia introdutório à obra do gênio renascentista. Nele, Vezzosi, contesta algumas teorias, entre elas a de que a Mona Lisa seria o retrato de um amigo de Leonardo travestido, revelando ainda a ficha policial de Da Vinci, que chegou a ser denunciado publicamente por sodomia. Vezzosi fala também das contradições de um vegetariano que dissecava animais vivos e explica as razões de sua rivalidade com Michelangelo.

A vida desregrada de Leonardo é mencionada de passagem em seu livro, quando o senhor cita o processo por sodomia no qual ele estaria envolvido com o pintor Andrea Verrochcio. Em sua opinião, ele apenas dividia o seu ateliê ou era homossexual?
A vida de Leonardo não era particularmente desregrada em relação ao tempo em que viveu. Ele foi vítima de uma denúncia anônima de sodomia num processo contra um rapaz da nobre família dos Tornabuoni. A partir desse documento ficamos sabendo que Leonardo trabalhava e vivia, como outros artistas, no ateliê de Verrocchio. Mas esse não estava entre os acusados. Em seu ateliê também trabalhou Botticelli, que seria, muitos anos mais tarde, vítima de uma denúncia anônima semelhante por sodomia, ou Perugino, que talvez fosse homossexual. Ao contrário do que afirma Dan Brown em ''O Código Da Vinci'', Leonardo não era ''declaradamente homossexual'' e, em seus estudos de anatomia, demonstra ter tido experiências sexuais com mulheres. Aquele que os livros de história da arte consagram como seu amante era, na realidade, casado e teve cinco filhos: Francesco Melzi.

Como explicar que Leonardo, considerando a guerra uma ''loucura bestial'', tivesse projetado tantas armas? Seu caráter era bélico?
Leonardo realiza desenhos extraordinários tanto do ponto de vista estético como técnico de armas da tradição européia e asiática, considerando que elas são necessárias para defender os bons e os justos do poder de ambiciosos tiranos. Num de seus escritos, de 1487, Leonardo justifica a invenção de armas fantásticas como instrumentos de defesa do povo contra os tiranos. Na juventude, ele queria inventar um método eficiente de afundar navios inimigos, mas na maturidade se recusa a divulgar os segredos da guerra submarina por temer ser traído por pessoas mal-intencionadas. Ele trabalhou, claro, para senhores da guerra como César Bórgia, mas tinha sobretudo uma postura ética que o habilitava a definir a guerra como ''pazzia bestialissima''.

O motivo da rivalidade entre Leonardo e Michelangelo não fica bem claro em sua biografia. O que teria motivado essa hostilidade?
Os dois, efetivamente, viveram competindo. Leonardo privilegiava a pintura, Michelangelo, a escultura (à parte o teto da Capela Sistina); Leonardo pinta em termos de ''sfumato'' e de infinito. Michelangelo esculpe com o ''non finito'' e pinta evidenciando a linha do contorno; Leonardo, artista universal da ciência e da tecnologia, tende a uma maior síntese interdisciplinar. Michelangelo é escultor, pintor, arquiteto e literato com maior determinação; Leonardo é irônico quando se refere à anatomia na obra de Michelangelo: ''Ele faz melhor um saco de nozes que a figura humana''; Michelangelo arrasa Leonardo pela fracassada fundição em bronze do cavalo de Sforza e ser apadrinhado por ''estúpidos milaneses''. Os dois juntos, seja com a ''Batalha de Anghiari'', pintada por Leonardo, ou a ''Batalha de Cascina'', pintada por Michelangelo, ambas no palácio della Signoria, em Florença, criaram o que Cellini chamou ''la scuola del mondo'', sugerindo um modelo para os artistas que os sucederam.

As relações de Leonardo com a religião nunca foram suficientemente esclarecidas nos estudos sobre o artista. Ele era apenas um oportunista que se aproveitava dos poderosos da Igreja ou acreditava nela?
Leonardo foi sempre movido por um impulso ético e moral, jamais oportunista e hipócrita como insinua, por exemplo, Dan Brown. Tinha uma preocupação autêntica em relação ao problema religioso e condenou a seita de hipócritas que o queriam impedir de servir a Deus trabalhando nos dias de festa. Nos estudos sobre Leonardo evita-se com frequência o confronto de tema tão complexo e esquece-se quanto de intensidade e reflexão interior e metafísica traduzem suas pinturas de temas religiosos. Leonardo pode ter tido menos encomendas da Igreja do que talvez tivesse desejado em relação a outros artistas, mas criou um novo modo de representação do sacro em obras como ''Adoração'' e ''Virgem dos Rochedos''.

Sua observação final sobre o diálogo de Leonardo com os contemporâneos, desde os simbolistas aos surrealistas, mostra que o espírito do pintor foi além da invenção das máquinas. O senhor acha que esse espírito renascentista está de novo inquietando os artistas do século 21?
Leonardo teve um papel inspirador essencial para as diversas vanguardas artísticas do século passado. E continua a ter, ainda que hoje mais limitado em sua intensidade e originalidade, subvertido pelo uso superficial da tecnologia e do marketing, quando não simplesmente diluído numa inflação de citações banais. Até por isso, como diretor do Museu Ideale Leonardo Da Vinci, redigi um manifesto ético em favor da arte: ''Salvemos Leonardo!'', um documento que, como o livro da Objetiva, quer fornecer informações que ajudem a separar o mito da realidade, o falso do verdadeiro, a banalidade da criatividade, num momento em que Leonardo é celebrado em todo o mundo mas também instrumentalizado.

Excepcionalmente hoje deixamos de publicar a coluna Leitura, de Marcos Losnak

mockup