Ontem completaram-se 30 anos da morte do escritor argentino Jorge Luis Borges. Para lembrar a data, sua viúva, Maria Kodama, programou homenagens em várias partes do mundo. Uma delas ocorre na próxima sexta-feira (17), aqui no Brasil. Trata-se da apresentação do documentário "Em Busca de Borges", do cineasta Christian Burlan que será mostrado no Cinesesc, em São Paulo, dentro do Festival de Cinema Suíço. A escolha deve-se ao fato de Genebra (Suíça) ter sido a cidade que Borges escolheu para passar seus últimos dias. Além da série de homenagens vale lembrar as boas publicações sobre Borges que existem no país, uma delas é o livro organizado pelo poeta, ensaísta e tradutor Floriano Martins que realizou um verdadeiro garimpo para reunir em dois volumes uma série de entrevistas de Borges que estavam dispersas em jornais e revistas latino-americanas, publicadas entre 1964 e 1985. O trabalho resultou em "Memórias de Borges – um livro de entrevistas" (Nephelibata/ 2013) que traz a essência do pensamento de Borges revelado a interlocutores como Alejandra Pizarnik e Ivonne A. Bordelois que abrem o primeiro volume, passando depois por María Ester Vásquez e Maria Esther Gillio, responsáveis por duas das melhores conversas com o escritor argentino, e muitos outros.

Entre a ideia de selecionar as entrevistas e organizá-las até a efetiva publicação do livro, Martins teve que esperar uma década. Faltava uma editora que assumisse o risco de enfrentar um eventual problema relacionado a direitos autorais, embora se saiba que as entrevistas concedidas à imprensa não se incluem nesta obrigação jurídica, o que não elimina totalmente os riscos de um embargo da obra. A publicação resultou em dois volumes de entrevistas que nunca haviam sido traduzidas para o português, com exceção da última, dada a Fabian Restivo em 1986.

"Memórias de Borges" traz uma seleção primorosa, trata-se de um mosaico das ideias do autor argentino que revelam rigor e, ao mesmo tempo, uma incrível modéstia para falar da sua própria criação. Ele ultrapassa a fulguração dos egos, que costumam figurar na literatura, para revelar atrás do escritor um homem preocupado em ir sempre além do que já havia produzido. A impressão é que para ele tudo o que fazia ainda parecia pouco.

Na apresentação do primeiro volume, Martins retoma a biografia de Borges a partir de sua morte em 1985, na Suíça, país para onde o poeta mudou-se com sua família em 1914 e onde permaneceu alguns anos. Ao fazer esta trajetória circular – morrer num país onde viveu parte de sua juventude - Borges foi encontrar-se com uma parte de si mesmo ou, como diz Martins, encontrar-se com "o outro que sempre foi o mesmo – a exemplo de alguns encontros anteriores que já tivera consigo, na emblemática coincidência de páginas e esquinas que configura sua vida e obra."

LEMBRANÇAS
O fio que conduz as entrevistas de Borges é a memória, suas perguntas são quase sempre tocadas por sentimentos da infância, lembranças de momentos da juventude costuradas a motivações que revelam muitas das suas escolhas. Não à toa, como mostra Maria Kodama num trecho incorporado à apresentação das "Memórias", Genebra também está presente no poema "Os conjurados", que dá título ao último livro do escritor argentino. Sua obra está impregnada de um movimento circular que remete ao tempo, tema fundamental na sua literatura. Na entrevista a María Angelica Correa, em 1969, Borges diz: "Teoricamente, poder-se-ia imaginar um universo sem espaço. Um universo puramente mental. Mas um universo sem tempo, sem sucessão, é inconcebível. Mesmo que os homens tenham inventado uma palavra para aquilo que não podem conceber: a palavra eternidade."

Das entrevistas saltam motivações que dão sentido a uma vida emblemática, a vida de um dos maiores escritores do século 20 que resgata vivências e raízes para justificar opções existenciais e literárias. É curioso observar que o autor de dezenas de obras - entre poesia, contos e ensaios - revela modéstia ao comentar dois de seus melhores livros: "Ficciones" e "El Aleph". Ele diz: "Parece-me que não estão mal, mas é um gênero que me interessa pouco agora."

Ao falar de como aprendeu várias línguas, Borges traz à tona suas motivações ao empreender também um grande mergulho na linguagem. Neto de uma avó inglesa e outra que falava castelhano, como a maioria da família, desde os quatro anos usou os dois idiomas em conversações domésticas, exercitando um conhecimento prático que antecede o aprendizado formal. Ele defende assim uma aprendizagem que não parte da gramática, mas de um envolvimento simbiótico com idiomas, a ponto de declarar na entrevista a María Ester Vásquez: "Não sei português e li Eça de Queiroz. Quando não entendia uma frase a lia em voz alta, e o som me revelava seu sentido." Abre assim a possibilidade de entender a língua, mesmo estranha, como um veículo de "revelações". Nada mais apropriado à sua literatura.

MORTE
As conversas com Borges quase sempre recaem em temas dos quais se levantam voos filosóficos, como a vida e a morte. Ele esboça ideias sem nenhum traço de censura moral quando trata de assuntos delicados como o suicídio, ponto da primeira entrevista do segundo volume de "Memórias", feita em 1975, onde ele explica a Suzana Chica Salas como na Grécia era possível, a quem queria se matar, levar a questão a um tribunal que, se julgava a causa justa, encarregava-se de dar a cicuta ao suicida.

No campo da literatura, suas ironias são destinadas às teorias, é hilária a maneira como se refere ao estruturalismo contando como reagiu num simpósio quando um grupo de estudiosos lhe apresentou uma análise de um de seus contos por este método: "Vejam senhores, agradeço-lhes muito, mas não percebo qual sua importância." Na sequência expõe suas razões ao dispensar tal abordagem afirmando que uma pessoa que lê e interpreta um texto desta maneira "priva-se de todo gozo estético."

Mas Borges também absorve as críticas que invariavelmente, mesmo nas entrevistas, lhe destinam o lugar de grande autor em prosa que perde o brilho na poesia. Mas defende sua poesia e, na entrevista a Roger Caillois (1977), fala como cada um encontra e assume sua linguagem: "Creio que cada poeta é essencialmente seu tom. Se pensarmos em Whitman, por exemplo, é a voz de Whitman. Ou se pensarmos em Verlaine, é a voz de Verlaine. Cada poeta tem sua voz, sua tom, sua maneira..."

Há muito a comentar sobre as ideias de Borges reunidas em "Memórias". Alguns temas atraem quase todos os seus interlocutores que poderiam estender a pauta, mas por obrigação jornalística quase sempre são obrigados a recortar seu pensamento em cerca de dez perguntas. A coletânea publicada no Brasil é uma sedutora milonga que sintetiza a verve argentina de um autor ligado à cultura do mundo, que viaja da tradição indiana à literatura contemporânea que afirma, no entanto, não conhecer bem, porque ficou cego em 1955.

No final do volume II há um roteiro com todas as fontes pesquisadas por Floriano Martins para fazer a seleção de entrevistas. Trata-se de uma pesquisa que acrescenta dados à trajetória de Borges de forma organizada e talvez inédita, sob o ponto de vista de um mapeamento do que há sobre ele na imprensa latino-americana.

A última entrevista do livro, "Um homem devorado pela fera", foi dada a Fabian Restivo em 1985, e trata-se da única que já havia sido traduzida no Brasil, publicada pela Folha de S.Paulo em 1986, poucos dias depois da morte do escritor.
Dias depois da entrevista a Restivo, Borges desapareceria, saindo de cena acompanhado por Maria Kodama, possivelmente para um tratamento de saúde, até morrer em 14 de junho de 1986 em Genebra. Nos dias que precederam sua morte nada se sabia acerca de seu destino, dizem que sua secretaria e companheira ergueu uma muralha ao seu redor. Melhor pensar que o autor de "Ficciones" esgueirou-se por um labirinto, como fez às vezes em sua literatura.

Serviço: "Memórias de Borges – um livro de entrevistas", volumes I e II. Organização, tradução, prólogo e notas: Floriano Martins (Nephelibata, 2013). Pedidos pelo e-mail: [email protected]. Informações: http://edicoesnephelibata.blogspot.com.br/

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