LITERATURA - Olhar atento sobre a frágil saúde do litoral
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de novembro de 2007
Equipe Agência Estado 
Quem vê o Brasil da cadeira da praia não tem idéia de quanto o litoral foi destruído nos últimos 50 anos. É muito, conclui o jornalista e fotógrafo João Lara Mesquita, que viu a costa brasileira, milha a milha, do Oiapoque ao Chuí, a bordo do seu veleiro Mar Sem Fim. Foi uma viagem em 33 etapas, de abril de 2005 a abril deste ano, feita para se transformar numa série de 90 documentários, exibidos pela TV Cultura. Longe de esgotar o assunto e com o objetivo de continuar chamando a atenção para a saúde frágil do oceano, o jornalista resolveu publicar seus diários de viagem em ''O Brasil Visto do Mar Sem Fim'' (Editora Terceiro Nome), dois volumes ricamente ilustrados com fotos dele, lançados recentemente.
Mesquita conta que montar a tripulação não foi difícil. O ''fiel escudeiro'' e imediato de bordo, Alonso Góes, estava escalado desde o início. Juntaram-se a ele o cinegrafista Paulo Cezar Cardozo e a jornalista chilena Paulina Chamorro. O grupo também recebeu convidados, que acompanharam partes da viagem, como o biólogo e velejador Fernando Cerdeira, o cinegrafista Rodrigo Cortegiano e a repórter Agis Variani. Também subiram à bordo a pintora Patrícia Magano e a pesquisadora Maria Lúcia Abaurre, além dos filhos do jornalista, durante as férias.
Escalada a tripulação, Mesquita precisava resolver o roteiro da expedição. Escolheu navegar do Norte para o Sul e, pensando nos lugares ermos pelos quais passaria, pediu apoio à Marinha. Foi prontamente atendido. A seguir, leia trechos da entrevista que João Lara concedeu em que ele fala sobre preservação ambiental e a necessidade de olharmos com mais atenção para o mar.
O quanto tinha de experiência de navegação antes dessa viagem?
Navego desde o fim dos anos 60, primeiro de barco, depois passei para veleiro. Tenho bastante experiência, já tinha 30 e poucas mil milhas quando fiz a viagem.
Você fala sobre o ''relegado e maltratado espaço marítimo brasileiro''. É tanto assim?
Sim. Foi isso que me fez optar por um programa chamando a atenção para o mar. Eu ficava horrorizado ao ver como numa época em que as pessoas se preocupam tanto com o meio ambiente, as crianças aprendem sobre isso nas escolas, muitos lutam pelo Rio Tietê, pelo cerrado e pela Amazônia, mas vão à praia e jogam cigarro no mar. As pessoas não têm noção da importância do espaço marítimo como ecossistema fundamental para a vida humana. O mar existe para os brasileiros como um espaço de lazer, significa praia, areia, cerveja, fim de semana e biquíni. Como a saúde do mar depende de como é feita a ocupação da costa, surgiu a idéia de fazer um programa do Oiapoque ao Chuí. Esse foi o mote do programa, com o objetivo de mostrar para as pessoas que não adianta salvar o continente e deixar o mar morrer, porque 71% do globo terrestre é formado por oceanos.
Esse descuido é só brasileiro?
Infelizmente é mais ou menos o que acontece no mundo todo. Não é exceção o brasileiro, apesar de a gente ter uma zona costeira gigantesca, não conhecer o mar ou não lhe atribuir importância. Todo mundo que estuda o mar fica horrorizado com o descaso do cidadão comum, não só aqui como nos EUA e na Europa. Porque o mar, você não vê, a vida marinha está toda debaixo d'água. Durante a viagem, acabei entendendo essa apatia. A idéia do programa é lembrar às pessoas que, se continuar assim, vamos naufragar.
Como ativista você é otimista? A consciência ecológica seria, então, um efeito de mídia?
É um efeito de mídia, mas já ultrapassou um pouco isso, depois que a comunidade científica mundial não tem feito outra coisa senão alertar sobre os perigos e problemas. Não importa como começou, o importante é que se tem essa consciência. As pessoas precisam se tocar de que os oceanos são parte fundamental do Planeta. Está na hora de as escolas não falarem às crianças apenas sobre a Amazônia, mas introduzirem estudos sobre os oceanos, ainda mais agora, quando a gente discute questões do clima. A comunidade científica já sabe dessa importância, só falta agora falar disso com o leigo. Sou otimista, sim, estamos no caminho certo.
E você navegou o tempo todo a cinco milhas da costa. Por quê?
A idéia era ir o mais próximo da costa, para poder observar a ocupação. Se a costa for bem ocupada, a saúde dos oceanos está bem preservada. Não houve um navegador dos séculos 18 e 19 que não tenha pirado quando chegou aqui. E essa beleza está sendo dilacerada, de maneira acintosamente grosseira. As pessoas não se ligam nisso porque em geral vão para a praia a pé. Mas quando você está no mar e vê aquelas mansões e prédios construídos na areia, se dá conta de quanto foi destruído.


