Curitiba Qualquer semelhança com a vida real não terá sido mera coincidência. A escritora paulista Stella Florence, baseou-se mesmo em acontecimentos verídicos para escrever o seu mais recente livro: ''O Diabo que te Carregue!'', uma reunião de crônicas bem-humoradas sobre um momento crucial na vida de uma mulher: a separação conjugal. Stella começou a escrever o livro há pouco mais de um ano, quando fazia apenas duas semanas que estava separada. ''Eu precisava aproveitar de alguma maneira aquele sofrimento e decidi escrever. Acho que quando a gente consegue viver a própria dor fica mais fácil suportá-la'', disse em entrevista à Folha2.
A escritora esteve em Curitiba na última sexta-feira para lançar o livro. É a quinta obra da autora lançada pela editora Rocco, mas dessa vez o livro tem uma característica peculiar: ainda em período de lançamento, já teve sua primeira edição esgotada. Duas coisas podem explicar o fenômeno: as outras obras da autora, como ''Hoje Acordei Gorda'' e ''Ele me Trocou por uma Porca Chauvinista'' cativaram o público feminino que busca na literatura um acalento para as mazelas da vida. E nesse caso, o conforto é melhor quando vem em forma de comédia. Pois são nas situações cômicas (se não fossem trágicas) que a autora busca inspiração.
Em ''O Diabo que te Carregue!'', por exemplo, o processo foi ''suuuuper-autobiográfico'', como salienta a escritora. ''Eu comecei a escrever no meio do meu processo de separação. Mas tem uma coisa: separação não é algo que acontece de uma hora pra outra. Vai se estabalecendo devagar'', relata. O livro é divido em crônicas que abordam os mais diversos temas, desde o ciúme, os cuidados com as crianças, as tentativas de novos envolvimentos amorosos pós-separação e, claro, a culpa.
Para Stella são temas comuns a todas as separações, tanto para homens como para as mulheres, mas que pouca gente consegue falar sobre eles. ''Acho que quando você lê num livro que uma pessoa passou uma situação semelhante você percebe que a coisa não é tão grave assim'', brinca. Mas quando a autora decidiu escrever o livro e partilhar uma questão tão íntima, ela se inspirou no processo da maioria das sociedades: ''É assim na maioria dos casos, você partilha um momento difícil para que ele fique mais leve. Não fique tão dramático''.
A escritora foi casada por sete anos com o também escritor Eduardo Haak. Tem uma filha de quatro anos. Todas as situações vividas no lento doloroso processo de separação são descritas no livro de forma cômica e risível e pretende mesmo servir como consolo para as mulheres que estão passando, passaram ou pensam em passar por essa situação. No livro, ela dá algumas ''dicas'' importantes. Como o fato de não existir qualquer possibilidade de uma separação amigável. Para ela, ex-maridos são feitos para ser, ''no máximo, tolerados''.
Para escrever sua mais recente obra, Stella lançou mão de situações vividas por ela e pelo ex-marido, mas também colocou um pouco (apenas 5%, como ela revela) de ficção. ''Só para arrendondar a história, porque nossa realidade não consegue ser tão redonda assim'', diz. Se na vida real, Stella tem uma filha, a personagem central do livro tem um casal de crianças. ''Fiz isso, só para ampliar um pouco mais o universo para leitora'', conta.
Assim como no livro, o casal, apesar de separados, mantém uma relação cordial quanto o assunto são os filhos. ''Para mim isso é fundamental. Você não pode contaminar as crianças com a sua raiva'', ensina. Embora confesse, que muitas vezes seja difícil negar o sentimento em relação ao ex-parceiro. ''Você sente raiva, sim. Eles geralmente voltam a ser solteiros como antes, mas nós, as mães, não. Ficamos com a maior parte da responsabilidade com os filhos'', relata.
Para ela, uma mudança fundamental nessa estrutura familiar moderna, em que casais com ou sem filhos se separam com cada vez mais frequência, é a guarda compartilhada das crianças. Assim, tanto na casa do pai como na da mãe, o filho tem um espaço garantido. ''Acho uma violência com a criança estabelecer horários e regras para ver o pai ou a mãe'', salienta.
''O Diabo que te Carregue!'' está tendo uma venda surpreendente desde que foi lançado e já esgotou a primeira edição. A escritora credita o sucesso ao fato das separações estarem mais comuns hoje em dia e também ao fato de as mulheres quererem discutir e falar sobre o tema. A autora confessa que não teme que suas obras sejam vistas nas prateleiras como livros de ''auto-ajuda''. ''Acho que no fundo toda boa literatura tem um impacto terapêutico. Se aquele livro não te ajudar em nada, não teve razão de ser lido'', argumenta.
Enquanto participa dos eventos de lançamento do livro pelo País, Stella já pensa no tema do seu próximo livro. ''Quero escrever sobre o sexo casual e em como você começa um novo relacionamento''. O novo projeto ainda não tem título e deve começar a ser desenvolvido apenas no ano que vem.

mockup